terça-feira, 9 de setembro de 2008

então tá, vamos falar sobre isso agora

com o ballet, aprendi a encontrar meu eixo entre dois dedos do pé e o queixo levantado. aprendi a fazer mão delicada mesmo depois de quinze minutos de sustentação de uma perna aberta em 90 graus. aprendi a apertar a bunda e a barriga juntamente com os cotovelos arredondados e o joelho aberto. entendi o significado de fazer parecer fácil, de fazer parecer que se é uma pluma, de fazer parecer que os tendões não doem, que o pé não dói, que nada dói. aprendi a encarar uma platéia depois de cair no chão, sorrindo, e de como um piano soa. aprendi a girar olhando um ponto fixo, a atravessar a sala com um pulo e até a levantar do chão sem usar as mãos. entendi que delicadeza não é sinônimo de fraqueza ou de fragilidade, mas que toda bailarina sabe usar a força nos lugares certos e não fazer isso transparecer. não é uma coisa que se aprende fácil, talvez nem eu tenha aprendido ainda, mas é que o ballet se torna OVERRATED, quando na verdade é mal interpretado. muita gente experimenta a sensação libertadora de fazer duas semanas de aula e logo de cara acha que é a isso que a dança se resume: copiar direito ao da professora. nada de contrações. cãibras. sange. bolhas. suor. e acaba achando que o ballet não precisa de esforço nem de bolsas de água quente nem de gelol - e leva tempo pra se enteder essa essência. bailarina não tem o direito de dizer um ai, não tem o direito de dizer que não consegue, não tem o direito de deitar no soalho e pedir pra ir tomar água: é pior que escoteiro, só que sem os insetos! e a terra e os nós e os lobos e os cumprimentos, claro... e não posso dizer que entendo e que sei tudo - não posso criticar aquilo que não entendo. se você quiser chamar ballet de arte, terá que considerar todas as minhas dúvidas (que não são muitas, mas são suficientemente grandes pra me fazer pensar). afinal, arte pode ser tanto plágio quanto revolução... e todo mundo vê arte naquilo que cria, naquilo que se move, naquilo que diz o que o artista quer dizer sem necessariamente ter que ser por palavras. e, no final de tudo, com o ballet comecei a desacreditar na perfeição. irônico né? ela não existe, simplesmente. e lidamos com isso toda vez que olhamos para o espelho: ou pernas curtas demais, pés que não obedecem, as gordurinhas marcando no collant, a bunda de brasileira atrapalhando. não pertencemos à elite da dança que coloca os escrúpulos dentro das sapatilhas de 300 libras esterlinas e que passam tanta fome que o plié as faz desabar no chão. isso cruza a linha tênue que divide a dança clássica e o exagero - e que nos faz sofrer tanto para justamente não cruzá-la. é esse o desafio: o belo de uma quarta posição de braços pode facilmente se tornar no exagerado de uma contorção de dança flamenca. o gracioso de uma cabeça que vira para o lado contrário das pernas em tandue alternado para trás pode num piscar de olhos virar o exagerado de uma coreografia de auxiliar de mágico. e até a beleza assustadora de pernas com um metro de cinquenta de comprimento abertas a 195 graus torna-se o exagerado de uma contorcionista do cirque du soleil. é preciso saber medir. é preciso saber calcular distâncias. é preciso decorar nomes em francês. é preciso saber fazer contagens. é preciso o mínimo de noção espacial. é preciso fazer os acordes da música parecerem sair dos seus próprimo movimentos: sentindo aquilo atravessar o seu corpo como aqueles arrepios dos anjos que passam correndo. sentindo simplesmente - é isso que o dançarino faz. sente.

almost nobody dances sober, unless they happen to be insane. – h. p. lovecraft

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

entregue-se como o mar

e justamente aí está o grande mal das pessoas. o fato de serem como são e ninguém poder fazer nada. só elas podem fazer algo por si mesmas, mas não enxergam, não querem olhar para dentro de si, têm medo. e se talvez enxergam, fingem que não e fecham os olhos. e passam a vida inteira com eles fechados esperando que alguém as salve, fingindo. somos como somos, não temos solução, unilaterais e orgulhosos, cuja menção de autoconhecimento nos faz ter medo de descobrimos o monstro que criamos. e eu me preocupo, vejo as pessoas tropeçando pela vida e tenho vontade de dar um daqueles chacoalhões e salvá-las. mas salvá-las de que? de que descubram que não há outra descoberta a fazer a não ser que nossos instrumentos e manipulações são precários - não existe o que fazer nessa vida além de ceder. cedemos para a morte, porque o que vivemos agora é apenas uma ponte. cedemos para a mediocridade, e permitimos que nossos filhos crescam destinados a um futuro que foi se estreitando (conforme vimos que não seriam capazes de serem nem milionários, nem gênios da computação, nem ídolos do futebol), cedemos, simplesmente, inteiros, e quase sempre sem impulso vital: esperando não dar certo, irredutíveis e imodificaveis a qualquer tipo de esforço. quero salvar as pessoas. quero agarrar ombros e sacudir até que consigam rotacionar seus próprios olhos para seu próprio interior. e podemos nos recusar a ver, podemos esperar o quanto quiseremos: sacudir a cabeça até o fim dessa maldita vida, sem necessidade de rever as certezas ou mover-se de um cantinho quente. mas a partir do momento que se vê, se sente, se escuta, se conversa, se pergunta, se conversa com o reflexo no espelho, você está perdido: as coisas não voltarão a ser as mesmas, nem você será o mesmo. talvez aceitará a estranheza de desconhecer quem é essa nova pessoa, ou talvez não conseguirá lidar com a dor de perder uma ingenuidade tão parasita que conseguia enganar seu próprio hospedeiro. mas pra todos há uma certa altura do campeonato em que desaba, entende. não demora muito tempo, não, pelo menos praqueles que têm a habilidade de entender suas confusões e se situar em bagunças emocionais... há sempre um momento, há sempre uma hora em que achamos tudo muito fácil para ser real. em que soamos tão falsos que começamos a procurar algo mais interior e mais verdadeiro. quando reconhecemos que a vida passou a ser nada mais que aquela batida de música eletrônica que nunca cessa e nunca muda e nos hipnotiza, em que a única coisa que fazemos é ignorar quem realmente está no controle dela.

foto: tenoch, julio e luisa, do filme y tu mamá también. "la vida es como la espuma, por eso hay que darse como el mar."

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

à minha estrela

meu pai é tão humano, tão nostálgico e tão carente que depila o peito com cera, joga carteado sob o sol de domingo e mexe no meu cabelo toda vez que precisa de um beijo (porque na verdade tem vergonha de simplesmente pedir um). ele pode não ser o melhor do mundo, porque às vezes reclama das notas, da alimentação junkie, do volume do ipod muito alto e essas coisas, e também porque pai perfeito não existe, é lenda. mito.

depois de um tempo aprendi a ver meu pai como uma pessoa que carrega um enorme buraco dentro de si mesmo. não sei porque, mas às vezes o vejo olhando para o nada com os olhos verde-acinzentado (que eu não herdei) e as mãos dentro dos bolsos. e ele parece encontrar o complemento pra esse vazio apenas no sorriso meu ou do meu irmão. é tão fácil fazê-lo feliz. chego em casa da escola e ele está no pufe da sala, tocando yesterday no violão com a palheta do aerosmith de madre pérola que eu dei e que custou uma porrada de dólares, querendo me impressionar. às vezes ele toca hey there delilah, só pra me ver vir correndo da outra sala até perto dele e cantar junto. mas ele não sabe que eu não gosto mais dessa música - e ela não representa mais nada pra mim, como uma vez representava - e eu finjo que é a minha preferida. é fácil fazer meu pai feliz, mas é muito difícil pensar na hipótese que talvez ele não seja feliz por completo. confesso que ja tive muito medo que isso fosse culpa minha; mas eu sou filha, vim dele, sou o sangue, o gene, tudo dele. e ele é tudo meu também. ele me dá tudo o que eu preciso, desde carona até um mimo de uns dígitos maiores do que deveriam ser. desde carinho até mijada, desde massa ao pesto que eu adoro e só ele sabe fazer até uma viagem para um lugar inimaginável no litoral carioca. vejo ele sério e penso que é o trabalho. prefiro pensar que é o trabalho. porque ele fez cinco anos de engenharia mecânica em são leopoldo morando num pensionato do exército e comendo arroz e farofa todo dia e hoje é responsável pelo emprego de milhares de pessoas. porque talvez ele não tenha tempo pra assimilar no que a sua vida se tornou porque o tempo é sempre preenchido com e-mails, telefonemas, papéis para assinar. talvez ele não seja feliz - ou não pareça feliz - porque hoje ele tem a vida que nunca imaginou ter; porque a juventude de delinquente juvenil do seminário que roubava carros e fumava maconha atrás da estátua da virgem de caravaggio não durou para sempre, como ele imaginou. porque rock in rio não é mais no rio, e o ac/dc não existe mais, nem o van halen e o ozzy virou artista da mtv. porque não se pode mais ser comunista nem ter pôster de fidel na parede do quarto quando se tira dinheiro da indústria mais capitalista do planeta. não se pode mais simplesmente sair de casa quando se briga com a namorada, porque agora ela é mulher e carrega seu sobrenome. ele não pode mais passar o dia fora andando de asa delta no morro da cegonha porque tem que voltar pra dar folga pra empregada e ajudar o filho na tarefa de matemática.
talvez meu pai não seja feliz por completo porque a vida passou pela janela e ele esqueceu de ir ver.

(eu e o meu pai confabulando sobre veleiros em Ilha Grande - RJ, no verão de 2007)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

out of the red, out of her head

sabe, eu tive uma fase que chorava quando via aquelas reprises escrotas do shows acústicos no multishow. e eu ja tinha até pensado que ela tinha passado, porque eu tinha visto do oasis, tinha cantado Shakermaker junto - e comendo wafer - e nem uma gotinha de lágrima me escorreu. insensível, né? mas, eis que lá estava eu, sentada na cadeira de rodinha do meu quarto, sem absolutamente nada passando na cabeça (nem na tv) quando eu começo a assistir o show do foo fighters. foo fighters meucu na verdade, era só o dave grohl e o baterista - acústico, óbvio. dai ele tocou umas músicas que eu não me recordava, contou umas piadinhas sobre tapetes e pessoas da platéia e no final, depois dos comerciais, tocou EVERLONG. e no violão. bom, o iniciozinho que é nãnãnãnãnã constante sabe, eu senti tudo virar inércia ao redor de mim. tudo ótimo lindo perfeito música linda meu deus até o refrão. "and iiiiiiiiiii wonderrrrrrrrrr..." foi nesse momento que eu pensei que tivesse uma corda daquelas de que seguram elevadores ou até uma viga de metal, me amarrando, bem lá dentro. "... not to stop when i say when" com as vozes no fundo e um violino matador, eu chorei cara, chorei com everlong, chorei sentada na cadeira de rodinha do meu quarto, chorei porque nunca mais tinha me permitido chorar daquele jeito e por aquele tipo de motivo. chorei como quem solta o nó. e chorei, principalmente, porque essa é o tipo de música que eu ouço um dia na mtv lab antes de ir pra escola e fico escrevendo a letra em todas as superfícies lisas ao longo do dia. é o tipo de música que se baixa numa manhã e se ouve no repeat até a manhã seguinte, sem parar, sem cansar, e sempre prestando atenção e tentando absorver toda aquela coisa complicada que uma voz e três cordas de violão são. chorei sim, chorei com a cara enterrada nas mãos, meio desesperada e me sentindo idiota. acho que tinha tanto estoque de lágrima dentro de mim que se eu não chorasse naquele exato momento do "hello, i've waited here for you... everlong...", meu organismo ia me forçar a chorar com my heart will go on. hm, é. sem falar que eu sinceramente não sei se é a dosagem hormonal, se é fase da lua, se é inferno astral, macumba gato preto maldição praga de deus pagamento de pecado ou o caralho, mas eu ando - sim, acreditem - sensível. não sei se eu fiquei menos casca-grossa ou mais sensível, mas é fato que eu jamais choraria com everlong e ainda por cima ficaria impressionada com a boca aberta na frente da tv tentando pegar ela só pra mim através de osmose. fato, fato, fato. bulletproof, quase. mas é que o "breathe out, so i can breathe you in" me arrepia até a raiz do cabelo. e multishow, mais showzinhos melosos, please, que eu adorei sentir essa sensação de novo depois de tanto tempo... choro derramado por música vale a pena!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

FORGETFULNESS, by billy collins

the name of the author is the first to go, followed obediently by the title, the plot, the heartbreaking conclusion, the entire novel. which suddenly, becomes one you have never read, never even heard of. as if, one by one, the memories you used to harbor decided to retire to the southern hemisphere of the brain, to a little fishing village where there are no phones. long ago, you kissed the names of the nine Muses goodbye, and watched the quadratic equation pack its bag, and even now as you memorize the order of the planets, something else is slipping away; a state flower perhaps, the address of an uncle, the capital of Paraguay. whatever it is you are struggling to remember, it is not poised on the tip of your tongue, not even lurking in some obscure corner of your spleen. it has floated away down a dark mythological river whose name begins with an L as far as you can recall. well on your own way to oblivion where you will join those who have even forgotten how to swim and how to ride a bicycle! no wonder you rise in the middle of the night to look up the date of a famous battle in a book about wars. no wonder the moon in the window seems to have drifted out of a love poem that you used to know by heart.
(na foto, alguns dias que meu pai e minha mãe provavelmente já esqueceram.)