"nem é você que eu espero, já te falei. aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. mas isso é filme, ele não. ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. vai olhar direto para mim. ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. é por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. não por você, por outros como você. pra ele, me guardo. ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. cuidado, comigo: um dia encontro. só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. está quase amanhecendo, boy. as damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. eu vou embora sozinha. eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. fora da roda, montada na minha loucura. parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. pós-tudo, sabe como? darkérrima, modernésima, puro simulacro. dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada."
domingo, 18 de novembro de 2007
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
lya luft;
não sejamos demasiadamente fúteis nem medrosos; enquanto houver lucidez, é possível olhar em torno e dentro de nós. um intervalo que seja entre a correria do cotidiano, os compromissos, o shopping, a tv, o computador, a droga, o desafeto, o rancor, a hesitação e a resignação. refletir é transgredir a ordem do superficial. mas se eu estivesse agachada num canto tapando a cara, não escutaria o rumor do vento nas árvores do mundo – que eu sempre quis tanto entender mesmo por um só dia. nem saberei se o prato das inevitáveis perdas pesou mais do que o dos possíveis ganhos. somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual: o poderoso ciclo da existência. nele todos os desastres e toda a beleza tem significado como fases de um processo.
falo da passagem do tempo, que aparentemente tudo leva e tudo devolve como as marés, mas que só nos afoga na medida que permitimos. falo do tempo que faz nascer e brotar, porem é visto como ameaça e sofrimento – o tempo que precisa ser domesticado para não nos aniquilar.
falo da passagem do tempo, que aparentemente tudo leva e tudo devolve como as marés, mas que só nos afoga na medida que permitimos. falo do tempo que faz nascer e brotar, porem é visto como ameaça e sofrimento – o tempo que precisa ser domesticado para não nos aniquilar.
precisamos encontrar o tom. pode ser um tom que nem é nosso, mas falso, imitado. um tom desafinado porque é superficial, ou harmonioso porque brota da alma. talvez a gente não encontre nunca. mas algumas pessoas não conseguem seguir seu ritmo porque nem escutam nem compreendem seu tom. outras o descobrem e acompanham seus movimentos: alegre, sereno, apaixonado, trágico, tedioso. não acompanham o fantasma das ilusões, mas sua amante – a vida. escutar o tom é mais fácil aos 40 anos do que aos 20 e aos 60, mais ainda. imagino que aos 80, tenhamos suficiente silêncio e espaço interior para que ele baixe, se instale, e cante.
“o mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade. sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem”
viver, como talvez morrer, é recriar-se a cada momento. arte e artifício, exercício e invenção no espelho posto à nossa frente ao nascermos. algumas visões serão miragens: ilhas de algas flutuantes nos farão afundar. outras pendem em galhos altos demais para nossa tímida esperança. outras ainda rebrilham, mas a gente não percebe – ou não acredita.
a vida não esta ai para ser apenas suportada e vivida, mas elaborada. eventualmente reprogramada. conscientemente executada. não é preciso realizar nada de muito espetacular.
mas que o mínimo seja o máximo que a gente conseguiu fazer consigo mesmo.
“o mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade. sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem”
viver, como talvez morrer, é recriar-se a cada momento. arte e artifício, exercício e invenção no espelho posto à nossa frente ao nascermos. algumas visões serão miragens: ilhas de algas flutuantes nos farão afundar. outras pendem em galhos altos demais para nossa tímida esperança. outras ainda rebrilham, mas a gente não percebe – ou não acredita.
a vida não esta ai para ser apenas suportada e vivida, mas elaborada. eventualmente reprogramada. conscientemente executada. não é preciso realizar nada de muito espetacular.
mas que o mínimo seja o máximo que a gente conseguiu fazer consigo mesmo.
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
pág. 306
bad things did not stick to her. correction: her bad things did not stick to her. our bad things stuck very much to her. if we were hurt, unhappy or otherwise victimized by life, she seemed to know about it, and to care, as soon as we did. but bad things falling on her - unkind words, nasty stares, foot blisters - she seemed unware. i never saw her look in a mirror, never hear her complain. all of her feelings, all of her attentions flowed outward. she had no ego! at the same time, she was entertaining. but, we held back. because she was different. different. we had no one to measure her against. she was unknown territory, unsafe. we were afraid to get too close. also, i think we were all waiting to see her next smile... she had caught-in-headlights eyes, that gave to her a look of perpetual astonishment, so that we found ourselves turning and looking back over our shoulders. wondering what whe were missing. she laughed when there was no joke, she danced when there was no music. she had no friends, yet she was the friendliest person in the whole school. she was elusive, she was today, she was tomorrow. the faintest scent of a cactus flower, the flitting shadow of an elf owl. we did not know what to make of her. in our heads, we tried to pin her to a crockboard like a butterfly, but the pin went trough and away she flew [...].
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
a-ma-du-re-cer;
quando lembrei que não lembrava mais, entrei em pânico. quando ouvi aqueles primeiros cinco ou seis segundos daquela música, me lembrei de uma sensação esquecida. não de rostos e sabores, nem de detalhes e de vozes, porque o efêmero foi feito para ser esquecido mesmo... mas eu entrei em pânico porque não lembrava mais daquelas palavras ditas numa madrugada de setembro, ou do medo e do amor e da cumplicidade... simplesmente todos aqueles rostos haviam escapado da minha memória e se transformado em alguns segundos de uma música. foi ai que eu entendi que não havia tido um surto de amnésia, mas sim um crescimento interno, um novo olhar, a lucidez de um certo distanciamento. permiti a mim mesma compreender aspectos meus e alheios antes obscuros. entendi perfeitamente que de "esquecimento" o nome passou para "amadurecimento". todo mundo sabe que às vezes a gente precisa se desfazer de algumas coisas. eu me desfiz de lembranças, de uma infantilidade que já nem era propriamente infantilidade... agora aquela sensação boa e segura de ter tudo sob controle tá presa à um solinho de guitarra... graças a deus, eu digo, porque faz bem deixar o passado virar passado, não faz? faz bem limpar armário, trocar as fotos do mural, tirar as folhas velhas de dentro dos cadernos. amadureci e é legal ver as coisas que eu fiz do jeito errado com olhos de vovó sábia. amadureci e não escrevo isso como se fosse uma autoafirmação. escrevo porque eu me perdoei por ter esquecido, ou melhor, amadurecido. promoveu-se uma espécie de anistia. gosto de usar essa palavra. é melhor que perdão, porque não tem nada a ver com deus e nem dá a idéia de que somos bonzinhos perdoando alguém.
nem a nós mesmos.
domingo, 9 de setembro de 2007
ser ou não ser;
é uma idéia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, e com ele sobrevivemos e naufragamos. explodimos e congelamos conforme nossa abertura ou exclusão em relação ao mundo. porque mesmo se formos armados, sofremos de uma carência elementar. ainda que protegidos, seremos expostos a imprevistos contra os quais nada nos defende. temos de criar essas malditas barreiras, e ao mesmo tempo lançar pontes com o que nos rodeia e o que ainda nos espera. toda essa trama de se encontrar e de perder, terror e indefinição do futuro, começa quando nos perguntamos: ser ou não ser? quando a gente desperdiça uma vida e trunca nossos talentos e esperanças se não tivemos a audácia para usufruir deles e da vida em si. quando fazemos uma retrospectiva e analisamos cada ação passada para fazer melhor no futuro. quando cai o telhado da certeza de quem somos, de onde viemos e para onde vamos. essa história de auto-questionação é uma merda mesmo, até porque não é fácil deixar de ser um fantoche para ser um "eu", para ser "você", para ser quem queremos ser, devemos ser ou achamos que devemos ser. constituir um ser humano que pergunta é trabalho que não dá férias. o que se produzir, o resultado desse longo martírio existencial, será a soma do que pensamos de nós, do que fizeram pensar que valemos, do que fizemos para mudar o que somos e o que esperamos receber de nós. no fim, contruimos nossa própria personalidade, e apartir desse momento, podemos duvidar de todo esse resultado. porém, tudo isso seria ainda simples demais. nessa argamassa mistura-se boa vontade, curiosidade, corações partidos, caminhos errados, lembranças esquecidas. participamos de uma singular dança de máscaras sobrepostas, atrás das quais somos o objeto de nossa própria inquietação. nem inteiramente vítimas, mas nem inteiramente mandantes, cada momento de cada dia, um desafio. essa ambigüidade, esse ser ou não ser, nos dilacera e nos alimenta, uma razão a mais para viver: descobrir quem realmente somos e quem é aquele estranho no espelho que é assim tão... humano.
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