comecei o ano com o pé direito, com vento na cara e rindo de tudo. chorei de cima de um farol. vi o mar ficar prateado, depois dourado e depois tão transparente como eu nunca tinha visto antes. descobri células de melanina no meu corpo que nem imaginava que existiam, contornei uma ilha de barco em plena tempestade e pensei que não iria sair viva. tomei sorvete de doce de leite num porto, invejei casas e barcos e contas no banco monstruosas, aprendi a sempre pedir pizza sem cebola. andei de bicicleta num campo de golfe, perdi um jogo de sinuca pra um gurizinho de nove anos e comi uma barrinha de twix sentada no chão da varanda. contei a mentira mais cara de pau da minha vida, cantei guns n roses na beira do píer, dei chilique com uma vendedora. e, depois de dez dias num paraíso mal aproveitado, encontrei meus pais, peguei as malas e parti pra bahia - a melhor semana da minha vida. ia dormir quando o sol acordava e acordava quando o sol tava indo dormir: tive uma overdose de farra que já na terça feira ainda não passou. conheci um vejetariano pernanbucano, um carioca que gostava de confundir as pessoas, uma modelo de ribeirão preto, um pedro de brasília, um guilherme auto destrutivo que derrubou um enfeite de parede em cima de mim, um casal de irmãos meio japoneses que eram muito sem noção e até fiz um cantor sertanejo milionário se apaixonar por mim. ouvi muita trova de um mineiro cujo apelido era pica pau, fiz amizade com um gay chamado vitor que usava crocs, com a cópia da cleo pires e também com sua irmã que tinha o queixo rasgado e dormia no meio das festas. ensinei argentinos a dançarem forró - eu não estava em sã consciência - e conversei em espanglês com eles. comi peixe todas as noites, tomei um banho de capirinha, berrei uma música dos backstreet boys dentro de um quarto de hotel enquanto secava o cabelo. corri uma são silvestre debaixo de chuva e quase peguei no sono num coqueiral. vi o sol nascer por trás da cidade de salvador, depois de uma madrugada exaustivamente divertida. fui "o que faltava fazer" pra um tal de deco que fedia a giovanna baby. tomei margueritas escondida, ri de um cover do ricky martin e perdi uma havaiana na praia. estava rodeada de pessoas - que, por acaso, não conseguiam nem se comunicar direito - mas parecia que estava sozinha. me arrumava todas as noites pra depois voltar pra casa tropeçando e ir dormir toda suja, com a televisão ligada e o meu irmão caçula roncando do meu lado. descobri que minha prima é muito paranóica e ao mesmo tempo muito parecida comigo. subornei um dj, tomei café em copo de plástico as 11 da noite, aprendi truques de truco e fui chamada de chata no mínimo umas cinco vezes. quase caí na piscina num momento de empolgação, levei um susto com uma iguana que apareceu no meio do meu caminho e comi tanto gelo até anestesiar minha boca inteira. dei colo pra um bêbado que insistia em me chamar de lú. tropeçei nas pedras do pelourinho, amarrei fitinha na grade de nossa senhora do bonfim, tive calafrio quando entrei numa igreja, comi um sorvete de menta maior do que a minha cabeça. fui confundida com uma européia, jantei pizza hut debaixo das cobertas. fiquei sete horas dentro de um avião vagabundo, apertado e desconfortável, fazendo palavras cruzadas compulsivamente e dormindo sentada. e, no dia 19, fiz tanta força pra não chorar que doeu minha cabeça. me despedi de todo mundo forçando um sorriso e dizendo um boa viagem meio gaguejado. troquei msn, fiz prometer que me mandariam as fotos e depois de vinte dias de tempo congelado e de "making some noise", tá na hora de voltar pra casa. volto cansada, de ressaca infinita, unhas quebradas, cabelo ruim, arrependimentos martelando na minha cabeça. eu de pijama desde de manhã, numa casa vazia, esperando a semana passar devagarzinho, penso: "eu trocaria a eternidade por essa noite".
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
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