sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

r.i.p.

faz quase uma década que o meu avô morreu.
de câncer.
ele era uma das pessoas mais fodas que a cidadezinha em que ele morava - e eu - conheceu: piloto de avião, professor de direito na universidade, advogado, viajante nas horas vagas, e ainda trabalhava no banco do brasil como se houvesse algum espaço na sua vida.
ele lia proust e tinha um tapete felpudo de pele que fedia à guardado. tinha uma hortinha nos fundos da casa, um porão recheado de lenha e de aranhas, três filhas adultas e três netos. uma casa de madeira na encosta do rio, que hoje é uma plantação de bananeiras na beira do asfalto, mas nunca deixou de ser a "casa do rio das antas". o concreto úmido e cheiro de musgo sob os pés, a descida do barranco e a toca do tatu. as pedras do rio. a correnteza. a ponte branca e suspensa se erguendo lá no fundo, os dois arcos gigantescos se curvando junto com o horizonte. eu e meu irmão grudando a bochecha na janela do banco de trás pra conseguir enxergar o fim daquela imensidão, se levantando sobre o carro.
e as cartas? escritas à mão num cartão postal barato e enviadas pelo correio dos navios europeus. "saudades, minhas filhas", ele escrevia com a caligrafia borrada, que mais parecia hemograma cardiológico! os torrones argentinos, os invernos passados na minha casa da rua são paulo, fogo aceso na lareira e o abajur antigo no canto da sala - que sempre me lembra dele. eu e minha prima dançando na sala, com os móveis afastados e o meu primo ainda bebê de colo. o vento balançando as portas da sacada e um pirulito pra cada uma das netas.
e não é nada além disso. minha memória deu um pause. um stop, na verdade. e não se passa um dia da minha vida que eu não olhe pra minha mãe e pense que ela já não tem mais pai. e que ela passou por cima disso e hoje faz festa, dança macarena, usa roupas étnicas e se recusa a usar aparelho dental "pra não parecer muito jovem, porque quarentona de dente muito perfeito é suspeito!".
porque perda de saúde se concerta com remédio, perda de dinheiro se concerta com empréstimo e perda de elasticidade da pele se concerta com botox, mas a perda do amor levado pela morte é a perda das perdas. ela nos obriga a andar por cenários do nosso interior mais desconhecido: aprender a perder a pessoa querida é no final, aprender a ganhar a si mesmo.
passei pelo terror do velório e do enterro, com pompa e meia calça preta, e sobrevém esse mais estranho e dolorido aspecto da morte: o silêncio do morto. o rosto roxo. as mãos cruzadas em cima da barriga e o cheiro nauseante de formol, cera de vela e floricultura; tudo jogado e misturado e socado numa menina que ainda tinha dente de leite. "you can forget, but you cant heal", diria marilyn manson (!). até porque é a morte que torna a vida importante. ela não nos persegue: apenas nos espera. nós é que corremos pro colo dela. o modo como vamos chegar até lá é nossa responsabilidade decidir. e quando estamos bem pertinho dela, todos nosso sentimentos são obrigados a se curvarem: com dor, com pavor, se submetem à uma prova maior. a aceitação.
ele morreu, e isso é irremediável. nem torrones, nem cartões postais, nem pontes brancas nem tapetes felpudos podem trazer de volta. nem o choro copioso das minhas tias e da minha avó, que agora se transformou em um sentimento morno de silêncio e vazio... é irritante ver aquela clássica fala "parece que ele(a) saiu de viagem, que a qualquer minuto vai voltar pra casa, entrando pela porta da frente!" saindo da tua própria boca.
e tenho que admitir: aprendi da pior maneira possível a lidar com as perdas.
perdendo.

2 comentários:

Laura L. disse...

não é só a perda do amor levado pela morte que é a perda das perdas... não se aprende a ganhar a si mesmo só porque perdeu pra morte... tem outro tipo de perda de amor, só que daí essa não envolve morte.

Laura L. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.