"chegou a hora de assumir, por exemplo, o meu peculiar jeito de ser. mal humorada com sons, principalmente os relacionados a gente que não sabe comer (comida) ou beijar sem estalar a língua. fresca com comida, de preferência as que esperam você cheias de perdigotos em self-service gordurosos ou, pior, são trazidas pelo garçom que insiste em botar o dedão dentro do prato. maldosa & sensível, feliz de andar cantando e depressiva de nunca achar que uma janela é só uma janela. eu sou sim a pessoa que some, que surta, que vai embora, que aparece do nada, que fica porque quer, que odeia a falta de oxigênio das obrigações, que encurta uma conversa besta, que estende um bom drama, que diz o que ninguém espera e salva uma noite, que estraga uma semana só pelo prazer de ser má e tirar as correntes da cobrança do meu peito. que acha todo mundo meio feio, meio bobo, meio burro, meio perdido, meio sem alma, meio de plástico, meia bomba. e espera impaciente ser salva por uma metade meio interessante que me tire finalmente essa sensação de perna manca quando ando sozinha por aí, maldizendo a tudo e a todos. eu só queria ser legal, ser boa, ser leve. mas dá realmente pra ser assim? eu sou essa pessoa. que não faz questão de ver quem a minha mente castradora me manda amar e que simpatiza, ainda que por alguma doença, com quem me judia aos pouquinhos. que quer matar a velhinha que demora horas para descer as escadas e segundos depois carrega a porra da velhinha no colo e chora sensibilizada pelas fragilidades do mundo. eu só queria que tudo fosse belo, cheirasse bem e tivesse o brilho de um fim de tarde com bebezinhos sorridentes. mas o mundo, as pessoas, as validades, tudo expira, tudo cai, os mitos viram defeituosos, as fortalezas de vidro vagabundo, tudo perde o encanto. e para mim, aceitar tudo isso ainda é comer o feijão com pressa e entupir uma narina. não entra direito. e eu volto a focar o lixo ainda que tenha um mar ao fundo. eu volto a focar o mijo, ainda que tenha a brisa e a maresia em todos os lugares. eu volto a focar o crime, a criança descalça, os olhos adultos de ódio em corpinhos de cinco anos, ainda que tenha a adriane galisteu correndo ao meu lado. eu volto a focar o vazio e essa imensa tristeza sem motivo dentro do meu peito, ainda que o cristo me mande um abraço aberto não muito longe dali. eu sou essa pessoa. que deixa doer porque esse é o único esporte que se pode fazer deitada e que dorme demais como uma resposta blasé a esse mundo que pensa mandar em mim o tempo todo. com medo das paredes fecharem e meus amigos não me amarem mais. com medo de sentir tanto, tanto, a vida, e vomitar em cima do mundo. com medo de quase tudo o que se mexe e muito mais do que não se mexe. mas com uma curiosidade que cura e emudece qualquer pânico. chegar do outro lado sempre ganha de permanecer e se afogar, ainda que eu engula um pouco de água para pedir socorro em prestações e jamais precisar do definitivo."
quinta-feira, 8 de maio de 2008
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