Tenho uma relação de amor e ódio com as manhãs. Normalmente as odeio porque precisam ser preenchidas por longas horas enclausuradas numa sala de aula, ou porque iniciam com um longo bocejo e o frio sulista gelando os pés quentinhos. Mas não quero falar do frio que faz aqui às sete da manhã. Hoje quero falar sobre o calor, sobre o verão e sobre um rio de janeiro que vai bem além do cristo. Existe um outro lado da moeda - mas mesmo assim ainda a mesma. É lá onde estão as manhãs tão lindas e tão cheias de cheiros bons e sensações, que no verão, são preenchidas rapidamente; com café da manhã ao meio dia e o direito de ficar enrolada no lençól que nem múmia por um bom tempo até o calor ficar insuportável. Mais além, foi nesse verão que aprendi a ver as manhãs com aquele quê de melancolia, esperança e lentes da câmera de um filme; o caminho familiar feito todo dia da casa alugada até o restaurante do hotel, para o café, passando pelos arbustos cheios de hibiscos cor-de-rosa e abelhas. Percorrendo devagar a orla do canal - a água do mar canalizada para dentro do condomínio - e absorvendo o cheiro de combustível diesel dos veleiros. As mansões dos milionários reluzindo as pedras de São Tomé, os mármores, os vidros, os enormes iates ancorados a um passo do jardim e as crianças loucas que eu sempre via correndo por eles. Eram naquelas manhãs compriiiiiidas que íamos os lugares mais lindos, percorrendo sem medo as rotas; seguindo em linha reta pela água ainda cinza do mar, bem na saída do canal, logo vinha a Ilha da Gipóia, e, bem onde o marinheiro ancorava, era possível ver um quase-continente chamado Ilha Grande. Era desafiador fazer esse passeio; o vento batia forte na cara e sempre se tinha a impressão de que o mar era infinitamente maior do que o barco podia suportar. Alcançávamos a Praia de Araçatiba depois de algum tempo de sacolejo nas ondas, e tinha aquelas árvores enormes e de folhas largas fazendo sombra na areia. Em Angra tudo é esquecido, e não tinha uma alma naquele lugar, nada além do barulho do motor, braços e pernas batendo na água e as vozes altas das minhas primas. Ainda pela manhã, com o sol a pino esquentando as costas ensopadas de Australian Gold, fazíamos a volta na ponta oeste da ilha, até que era alcançada a Praia dos Meros: alto-mar, água azul petróleo bem funda, cheia de água viva e peixinhos que faziam cócegas nas pernas. Depois vinha, numa ordem crescente de beleza e esquecimento, a do Aventureiro, do Sul e do Leste, Parnaioca, e, Lopes Mendes: uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida; enorme, quase interminável, com aqueles bancos de areia cobertos por amendoeiras, uma profundidade de quase quatro metros, mas o fundo ainda visível. Todo mundo enchia os olhos de lágrimas e depois, de marcha ré, adentrávamos de novo no alto-mar, fazendo a volta. Era o caminho de casa, por isso sabíamos quando estava chegando no final, que normalmente vinha antes da uma da tarde. A essa hora, no final da manhã, o mar parecia feito de ouro, uma coisa tão impressionante, tão linda, e tinha um farol, Farol dos Castelhanos, daqueles que Hemingway descreveria num de seus livros. Listrado de vermelho e branco, cercado de pedras inalcançáveis. Depois, passava correndo Freguesia de Santana, o Saco de Céu e mais dezenas de prainhas que eu não me lembro mais o nome; todas exclusivíssimas àquela hora, longe das escunas turísticas e dos cariocas invasivos. E todas com suas igrejinhas brancas, pescadores morando em barracos e comendo os mariscos trazidos pela ressaca da maré, e talvez aquelas histórias meio bobinhas sobre piratas, escravos que morreram de escorbuto nas cavernas, e mais horrores de blablabla's que faziam os olhos do meu irmão brilhar.
Uma hora e trinta minutos acabava minha manhã. Acabava a parte mais deliciosa do dia e começava a parte insuportavelmente entediante e quente; o dia transcorria calmo, abafado - com aqueles ventos-que-não-fazem-vento que vêm da África, e não havia um minuto antes da noite em que eu não pensava na próxima manhã. Hoje, nos finais de semana de janela aberta e cheiro de férias, as manhãs são doloridas... Se não é a ressaca física de sexta ou de sábado, é a moral, que mil vezes pior, transforma as manhãs parecidas com as de Angra em um inferno na terra, mesmo que o vento sopre sem fazer vento, ou que o mar pareça estar perto do Alto Uruguai. Minha relação com as manhãs é dividida por uma linha estreita; de um lado, o verão, as Havaianas coloridas, camarão e a Ilha Grande. Do outro, o inverno, a escola, os cachecóis e as blusas de lã, o chiado do vento minuano nas frestas da janela. Normalmente consigo conciliar esses dois extremos e ficar balançando no meio da linha; o corpo pendendo nem para um lado nem para o outro, como se alguma mão me segurasse ali em cima, sempre na dúvida, mas sempre insistindo em dizer GOOD MORNING, SUMMERTIME!, mesmo quando a temperatura é negativa!
Uma hora e trinta minutos acabava minha manhã. Acabava a parte mais deliciosa do dia e começava a parte insuportavelmente entediante e quente; o dia transcorria calmo, abafado - com aqueles ventos-que-não-fazem-vento que vêm da África, e não havia um minuto antes da noite em que eu não pensava na próxima manhã. Hoje, nos finais de semana de janela aberta e cheiro de férias, as manhãs são doloridas... Se não é a ressaca física de sexta ou de sábado, é a moral, que mil vezes pior, transforma as manhãs parecidas com as de Angra em um inferno na terra, mesmo que o vento sopre sem fazer vento, ou que o mar pareça estar perto do Alto Uruguai. Minha relação com as manhãs é dividida por uma linha estreita; de um lado, o verão, as Havaianas coloridas, camarão e a Ilha Grande. Do outro, o inverno, a escola, os cachecóis e as blusas de lã, o chiado do vento minuano nas frestas da janela. Normalmente consigo conciliar esses dois extremos e ficar balançando no meio da linha; o corpo pendendo nem para um lado nem para o outro, como se alguma mão me segurasse ali em cima, sempre na dúvida, mas sempre insistindo em dizer GOOD MORNING, SUMMERTIME!, mesmo quando a temperatura é negativa!


(Good morning starshine, the earth says hello! You twinkle above us we twinkle below...)
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