domingo, 2 de março de 2008

domingo

hoje eu acordei às dez horas e me senti feliz não só porque meu cabelo tava surpreendentemente bonito, mas porque era um dia frio. e chuvoso. e feito pra ficar tristinha e me arrastar pelos cantos da casa observando como os livros e objetos estavam dispostos por ela. hoje acordei cedo e desejando que não fosse domingo pra não ter que pensar que amanhã tem aula, desejei receber alguma coisa pelo correio, pra poder ler enquanto tomava café. acordei imaginando como seria acordar daqui a três - ou perhaps quatro - anos, numa cidade diferente, numa cama diferente, numa vida diferente. acordei cedo não porque o despertador tocou, mas o sono foi esvaindo que nem um fiozinho; quando eu vi, eu tava de olhos abertos, olhando pros buraquinhos da persiana das janelas que vão de uma parede até a outra e desejando mais algumas cobertas e talvez um braço ao meu redor. fiquei feliz por alguns minutos porque tava passando popeye, o desenho mais infância de todos os desenhos da face da terra, e eu me lembrei de uma música que era alguma coisa com "olivia não quer casar, brutus quer ser papai, tantantantan...". e além disso, meus pés e as minhas mãos estavam gelados, como naqueles dias lindos e horrivelmente frios de inverno, e dentro de mim eu ninava um sentimento de conforto e saudosismo; como diria tati bernardi, um petit gateau humano. acordei querendo um blog mais bonito, e um curso de verão em paris pra aprender a desenhar e a costurar e, pra completar, uma máquina do tempo pra me transportar pelo início desse ano e o fim de janeiro. acordei e fui comer nutella e capuccino no copo de plástico térmico pra não esfriar, com a minha calça do mickey que eu amo tanto e depois ensinei meu irmão sobre o nirvana e como o kurt foi uma pessoa importante pra história pop. ele pareceu mais interessado no programa do discovery que falava sobre bombas atômicas, mas eu sei que dentro dele tem essa coisa que os rockers tem, uma vontade de balançar a cabeleira e de ter orgasmos alucinantes com os riffs dos beatles... ele me olhou com os mesmos olhos que eu tenho - pequeninhos, quase invisiveis pela manhã - e disse que eu era a pessoa que mais sabia sobre coisas no mundo inteiro: porque eu sabia sobre segunda guerra mundial, sobre ballet e sobre nirvana. porque eu ensinei ele o truque dos dedos da tabuada do nove e expliquei umas coisas sobre física e mandei ele escutar the strokes porque isso sim era música de verdade. meu irmão é um fofo, detrás dos dentes separados e da angústia que as crianças levam dentro de si, porque querem ver tanto que os olhos não suportam. hoje, um domingo de chuva sol e vento, eu, laura, acordei feliz e relativamente satisfeita com as coisas que me cercavam. achei os furinhos da persiana do quarto bonitos, o meu cabelo bonito, o pó do capuccino de desmanchando no leite bonito, a ingenuidade do meu irmão bonita, o meu receio bonito, minhas calças do mickey bonitas... acordei cedo e completa, suspirando, querendo ouvir uma banda nova (logo depois fiz a descoberta musical da minha vida: arcade fire, minha gente, gravem esse nome.), e sentindo saudades dos meus pais que estavam viajando e odiando uma única coisa: o fato de ter que ir para o sítio do meu vô comer carne de vaca pingando sange no prato e passar frio naquela casa sem paredes. fui e nem os mosquitos, nem a vista triste do lago e da ponte, nem a pereira em que eu passei uma parte consideravel da minha infância, conseguiram estragar meu humor. não era bom humor, mas também não era mau; era confortável. porque eu acordei cedo num domingo nublado e fiquei feliz com as mãos e pés gelados e com os olhos pequenos do meu irmão igualmente pequeno. passei o resto do dia me deliciando com coisas pequenas e bombons de licor melecados que até acredito que a segunda feira vá ser um dia bom como foi esse domingo.

Um comentário:

Dan R. disse...

uau lau, que nostálgia. normalmente me sinto mal nesses domingos em que eu fico reparando em coisas banais e prevendo o futuro. se bem que não são só aos domingos que isso acontece :/
te adoro, um beijo