sexta-feira, 7 de março de 2008

tento

tento não sentir medo ao pensar que meu tempo aqui ainda é pouco, tento não me envergonhar do que sinto, tento não sorrir e esfregar os olhos no meio da noite ao me descobrir deliciosamente arrependida. tento não usar tantas vírgulas. nem muitos pontos, nem repetir todas as frases como fernando sabino fazia com destreza. tento não encarar as pessoas nos olhos como eu adorava fazer até pouco tempo - pra depois ver a reação delas ao me perceberem: apoiada nas mãos, as esquinas da boca caidas, fazendo força pra parecer com alguma personagem diabólica e hipnotizante. tento não chorar; ao ouvir uma música de meia dúzia de notas no violão, ao ler aquele trecho de "O Passado", que fala sobre tomar banho com o sol na cara, encontrar bilhetinhos nos bolsos dos casacos de inverno e sobre se sentir só. tento não esperar nada de nada nem de ninguém - ficar absolutamente sozinha numa altura tal onde ninguém jamais conseguiria me alcançar. tento manter a compostura, quase sempre. me vigio 24h por dia pois tudo deve ser recebido com um sorriso e um brinde: eu, inteiramente serena vigilante comportada desapegada inovadora. tento não sentir saudades, "oh Deus, que doce inferno esse de lembrar o bom de antes quando nem sabíamos que acharíamos bom um dia. e seria? cuidado, o Tempo mascara o duro.", e tento com todas as minhas forças sorrir ao encontrar algum amigo que já partiu pra outra e hoje já não é a mesma pessoa, ou talvez ao rever uma foto de rostos colados, felizes, de uma noite de verão passada entre besouros e discussões sobre gostos musicais. tento não suspirar longamente toda vez que chego em porto alegre: minha cidade preferida de todos os tempos, que tem tanta coisa pra ser descoberta e chamada de "sua", como os jogos americanos do brique que a minha mãe comprou num domingo de tarde, ou até as frases pichadas nos muros que eu fico louca de curiosidade toda vez que as leio. e o paralelo trinta? e os barracões do guaíba, os guindastes e o cine apolo onde sempre imaginei a Nazaré (da novela) chingando as prostitutas e ajeitando o sutiã? tento não sentir saudades de lá. tento não deitar a cabeça no teclado e absorver a voz de elis regina berrando "poriiiiiiiiisso cuidado meu bem..." e tentar imaginar meu pai de adidas nos pés e camisa sintética vermelho-bordô temendo os polícia que vieram em nome do AI-5. tento não chorar em fim de livro, como eu fiz no dia 31 de dezembro depois de reler a sombra do vento e me sentir morando em cada linha. um aperto no peito porque daniel sempere era um personagem - não uma pessoa. tento não me apaixonar por personagens, falando nisso. nem ter heróis, porque no fim, você sempre acaba descobrindo que eles são tão losers quanto você: piaf deu uma garfada na jugular do marido. virginia woolf afogou a si mesma. marilyn tinha medo de envelhecer e deu sua vida pra não ver isso acontecer. e bem, harry potter é um inglesinho com dentes podres, carl barât um junkie desgraçado que não dá valor pra sua capacidade de composição musical e jude law tem o triplo da minha idade. nada de personagens, nada de ídolos, nada de paixonites exageradas: tento não perder tempo. admiro caio fernando abreu - pelas vísceras depositadas nos textos. admiro ian curtis porque, well, "love will tear us apart". admiro alex turner porque ele é um gato. admiro os brothers do oasis, liam e noel, porque... bom, porque eles são eles. admiro um punhado de gente, mas não deixo isso se confundir. pra completar, tento ser forte e não desistir dessa nova fase. fase que começou comigo enlouquecendo de tanto medo, depois passou pra uma estabilidade falsa, depois mudou drasticamente para alguma coisa pré-nirvana, alucinógena, fresca, assim, surreal. sur-re-al, pronunciado com um sorriso na boca e as mãos abertas. tento não entristecer perto do mundo que decai, dos dramaturgos que ficam cada ano piores, dos jovens que se deixam emprestar por pura falta do que fazer, e, principalmente, perto da minha insignificância. tento não inventar histórinhas pra mim mesma o tempo todo e me transformar magicamente numa daquelas divasdivinas trajando valentino e fazendo como naquela última cena de casablanca, no aeroporto. não sei, acho que se pudesse me colocar numa história perfeita, me escreveria melancólica: "é outono, vaga pelas ruas...", alguma coisa assim, ou paranóica e descreveria os devaneios com letras maiúsculas negritadas. tento não transformar tudo em roteiro de filme... câmera na minha mão, imagem amarelada, nada de trilha sonora: só o barulho real dos passarinhos do lado de fora, ou os talheres batendo no prato, ou sei lá. e pra completar minha série de "tentos", termino com um não menos importante - ou freqüente.
tento abraçar minha loucura antes que seja tarde demais.
e no dia seguinte, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar tentando.

Um comentário:

Laísa disse...

sério que conhece ele? o_o
guilherme garsia
;*