sábado, 20 de setembro de 2008

à minha estrela

(seu rogério aos vinte anos, de ray-ban e calça skinny)
meu pai é tão humano, tão nostálgico e tão carente que depila o peito com cera, joga carteado sob o sol de domingo e mexe no meu cabelo toda vez que precisa de um beijo (porque na verdade tem vergonha de simplesmente pedir um). ele pode não ser o melhor do mundo, porque às vezes reclama das notas, da alimentação junkie, do volume do ipod muito alto e essas coisas, e também porque pai perfeito não existe, é lenda. mito.
depois de um tempo aprendi a ver meu pai como uma pessoa que carrega um enorme buraco dentro de si mesmo. não sei porque, mas às vezes o vejo olhando para o nada com os olhos verde-acinzentado (que eu não herdei) e as mãos dentro dos bolsos. e ele parece encontrar o complemento pra esse vazio apenas no sorriso meu ou do meu irmão. é tão fácil fazê-lo feliz. chego em casa da escola e ele está no pufe da sala, tocando yesterday no violão com a palheta do aerosmith de madre pérola que eu dei e que custou uma porrada de dólares, querendo me impressionar. às vezes ele toca hey there delilah, só pra me ver vir correndo da outra sala até perto dele e cantar junto. mas ele não sabe que eu não gosto mais dessa música - e ela não representa mais nada pra mim, como uma vez representava - e eu finjo que é a minha preferida. é fácil fazer meu pai feliz, mas é muito difícil pensar na hipótese que talvez ele não seja feliz por completo. confesso que ja tive muito medo que isso fosse culpa minha; mas eu sou filha, vim dele, sou o sangue, o gene, tudo dele. e ele é tudo meu também. ele me dá tudo o que eu preciso, desde carona até um mimo de uns dígitos maiores do que deveriam ser. desde carinho até mijada, desde massa ao pesto que eu adoro e só ele sabe fazer até uma viagem para um lugar inimaginável no litoral carioca. vejo ele sério e penso que é o trabalho. prefiro pensar que é o trabalho. porque ele fez cinco anos de engenharia mecânica em são leopoldo morando num pensionato do exército e comendo arroz e farofa todo dia e hoje é responsável pelo emprego de milhares de pessoas. porque talvez ele não tenha tempo pra assimilar no que a sua vida se tornou porque o tempo é sempre preenchido com e-mails, telefonemas, papéis para assinar. talvez ele não seja feliz - ou não pareça feliz - porque hoje ele tem a vida que nunca imaginou ter; porque a juventude de delinquente juvenil do seminário que roubava carros e fumava maconha atrás da estátua da virgem de caravaggio não durou para sempre, como ele imaginou. porque rock in rio não é mais no rio, e o ac/dc não existe mais, nem o van halen e o ozzy virou artista da mtv. porque não se pode mais ser comunista nem ter pôster de fidel na parede do quarto quando se tira dinheiro da indústria mais capitalista do planeta. porque hoje ele não enxerga mais direito de perto, nem consegue mais correr na mesma velocidade, nem entende direito a tecnologia. porque ele precisa pedir ajuda pra algumas coisas no celular. porque ele sabe que vamos largar da mão dele se ele tentar pegá-la. porque às vezes ninguém entende porque ele chora, ou porque ele grita, ou porque ele não quer falar com ninguém. porque ele se nega a se acostumar com o fato de não me ter mais morando em casa em alguns anos. porque não se pode mais simplesmente sair de casa quando se briga com a namorada, porque agora ela é mulher e carrega seu sobrenome. ele não pode mais passar o dia fora andando de asa delta no morro da cegonha porque tem que voltar pra dar folga pra empregada e ajudar o filho na tarefa de matemática.
talvez meu pai não seja feliz por completo porque a vida passou pela janela e ele esqueceu de ir ver.
(férias em Búzios, já fazem 12 anos)

Um comentário:

Bibiana disse...

MEU, QUE COISA LINDA =~~~~~~~ me emocionei, sério! ele leu isso? se ele é que nem meu pai ele vai ficar com os olhos marejando (mais ou menos que nem eu agora). e ah meu, ele gosta de ac/dc? =~~~~~~~~ se ele gosta ele é o cara! o cara! =~)