quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

De mudança

Sabe, escrever é uma coisa que parece ter nascido grudada em mim, mas não sei exatamente de que forma, nem quando, que descobri a paz e a dor que a escrita me proporciona.
E eu quero escrever, quase todo o tempo - mas os enredos, os personagens, os parágrafos perfeitamente articulados, não saem da minha cabeça. Isso me dói de uma forma quase torturante, então eu acabo perdendo algumas horas de sono lendo uns manuais estranhos de construção & teoria literária; como arquitetar suas frases (para que não haja nenhum elemento desnecessário, que quebre qualquer harmoniosa sequência), seus diálogos, seus narradores, seu espaço-tempo, e, claro, tudo de uma forma nada didática. Uma velharia da universidade federal do Rio Grande que eu catei uma tarde na biblioteca da escola. Ok. Sono perdido. Lá vem ele de novo: o fantasma da criatividade reprimida, e olha, uma coisa eu posso dizer, não há nada no mundo que ocupe mais espaço dentro da gente como o impulso de criar.
E eu levo a literatura muito a sério, ainda mais depois que terminei meu primeiro livro "de gente grande", Espelho Partido, de Mercè Rodoreda, uma escritora catalã que levou uns 28 anos pra escrever sua obra prima. Em cada palavra eu sentia como se ela estivesse contando tudo aquilo ao vivo pra mim, sentada nos pés da minha cama. As coisas se materializavam. Os cheiros, as vozes, e cada vírgula estava ali onde estava não por estética - era necesessária uma pausa para respiração do leitor, transformando tudo, colocando as coisas em seus devidos lugares, elevando cada frase à um patamar surreal de beleza. Relia os trechos em voz alta. E eu chorei tanto, tanto. Aquilo me tocou de uma forma tão verdadeira, que eu acordei uma manhã, o livro todo amassado embaixo da minha bunda, e falei pra empregada: eu quero escrever assim.
Depois, foi só ladeira abaixo. Vieram tantos outros autores, que sentaram na minha cama antes da minha hora de dormir, e a cada livro me apaixonava pelos seus personagens, por Barcelona e por Salvador, por suas vírgulas, pontos, travessões, pela maestria com que conduziam a história, construindo estilo e ritmo próprios, exatamente da forma que queriam. Grandes autores jamais se deixam conduzir por sua própria técnica. É um longo caminho a ser percorrido.
Agora estou aqui, no meio de uma crise. As idéias estão aqui também, junto comigo. Toda minha bagagem de títulos e manuais e gramáticas e etc etc etc estão aqui. Tenho inspirações a todo momento, analisando filmes, olhando a rua, o céu, observando a vida correndo e correndo. Algo me bloqueia... ja tentei meditação. Yoga. Budismo. I-Ching. Pai Nosso. Benzedeira. Até deixei baiana jogar os búzios pra mim, me perfumar de alfazema, e encaixar um patuá de Oxum no meio do decote. Nada de inferno astral, eu sou taurina arretada, e esse é o ano de Touro, flores amarelas no mar, pro tal Oxum. Mas é isso ai, esse blog só me lembra da minha quase-sina de querer escrever, mas não conseguir produzir nada digno de um post aqui. É frustrante.
Então ontem abri uma conta no Tumblr, que eu acho mais bonito e mais organizado, e já me mudei, carregando junto a esperança de que assim, os ares se renovem, a poeira baixe, e eu consiga, talvez, soltar o meu freio de mão.
De qualquer forma, significa muito pra mim divulgar minhas bobagens, e não preciso nem saber que alguém lê, só me sinto segura sabendo que nada se perderá no anonimato. Espero que as pessoas entendam meu jeito exageradíssimo de caracterizar tudo, meu gosto pelos adjetivos, pelas palavras doces, pelos momentos fugazes, e espero ainda que levem um pedacinho de mim para suas vida, através do que eu escrevo (com tanta dor e alegria).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Dálias, amarílis, lírios, margaridas, orquídeas, jasmins...

Me despeço de 2009 sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga de saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Abro os braços para o que desponta no horizonte curvo que esconde o planalto do Rio Grande - 2010. Me preparo e observo o momento como se segurasse uma delicada bolha de cristal entre as mãos. Maravilhada. Consciente do fugaz. É uma felicidade doída. O Cruzeiro do Sul está no céu, perfeito, também a Ursa Maior, Capricórnio ligando algumas estrelas aqui e ali, as Três Marias e a Dalva mais brilhante de todas. Céu claro de fins de dezembro, somado ao vento quente, me deram a coragem e a sinceridade suficientes para aceitar a nova década mais plena do que aceitei 2009. A saúde está perfeita, a visão nem tanto... mas prossigo. A delicada engrenagem se move dia após dia. Acordo, rezo, café passado, rotina. E a cada dia desses, a acho mais deliciosa, a tal rotina. Ando impressionada com a passagem do tempo e com a vida em si, ando abraçando meus avós, ando fazendo carinho nos cachorros de rua, sem pensar muito no agora, no depois, no antes. Sem pensar muito em nada, na verdade. Minha cabeça parece um daqueles quadros abstratos, em que o que a primeira vista parece uma casa com montanhas ao fundo logo depois torna-se nitidamente o rosto retorcido de alegria de uma pessoa. Nada se define, e os contornos confusos dos desejos para o próximo ano se organizam desorganizadamente. Não sei o que quero exatamente, mas em momento nenhum me permitira desacreditar em minhas esperanças. A vida grita, e a luta continua. Acordamos, rezamos, café passado, dor de todo dia, dor nos olhos, de quem vê pouco e quer ver muito mais. Não desejo a cura, nesta década que vem vindo, só desejo a força para suportar a dor. E foco. E alguém para passar o tempo, ver as coisas e pessoas e a vida girando rápido demais. E talvez equilíbrio para saber dosar e consumir homeopaticamente minhas ambições. Isso é tudo, e ao mesmo tempo, é muito pouco... Não tenho certeza de nada, e isso nunca foi tão bom, confortável, lindo, e encorajador. Só sei que tudo brota; dálias, amarílis, lírios, margaridas, orquídeas, jasmins... A esperança brota. A paz também. O amor nasce nos terrenos mais inusitados, como uma erva daninha. Quero me colorir de flores! Quero principalmente luz. Alfazema. Alecrim. Lavanda. Chá de maçã turca durante a novela pra esquecer a falta de todas as coisas. Notas altas. Festas intermináveis. O nascer do sol da minha janela, por trás do vale. O mar. O silêncio. Quero paciência, fé, criatividade! Quero o que todos os seres humanos querem, mas não peço felicidade, diferente da maioria - sou humilde o suficiente. Acho que o caminho até a felicidade é mais divertido e à confere um status de prêmio. Eu, e todos nós, somos um pontinho, uma fração, um milésimo, um grão de pó... E pode parecer ambicioso para um pontinho mas de repente gostaria de ajudar a transformar este mundo numa coisa melhor: que em 2010 eu consiga deixar uma marca. E, vocês sabem... Tudo é ilusão, tudo é círculo vicioso, tudo é só estrada que corre e corre, e todas as estradas vão para o mesmo lugar. Que as paisagens em volta desta estrada sejam belas, então. Cachoeiras de água gelada pra varrer do corpo qualquer negatividade. Redes de algodão cru pra embalar a sesta. Chimarrão bem quente nas manhãs de geada. Um homem de boa pegada e bom espírito para conduzir o jogo. E no verão, mar azul turquesa. Estradas belas, afinal, já que o final é o mesmo para todos nós, e a vida é uma ponte entre dois nadas. Não esperarei telefonemas, cartas, emails, palavras, não esperarei pela "tal coisa", pois é preciso ser feliz agora, já, imediatamente. 2010 não nos esperará também. E na manhã de Iemanjá, talvez jogar rosas brancas na sétima onda, depois partir sozinha. Sem fazer planos.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Hiato criativo

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios.
Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te.
Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
É esse tipo de criador que você quer ser?
Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na livraria Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci/conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.
Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nos tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você.
Você sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

(Carta de Caio F. A. ao amigo Zézim,
Porto Alegre, 22 de dezembro de 79.)


"TÃO TRISTE TER DE BUSCAR LÁ FORA

O QUE JÁ DEVERIA ESTAR AQUI DENTRO."

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Onde eu gostaria de estar agora

A inquietação que a falta de paz interior causa é destrutiva. Falta o sono, a vontade, a força. E quando as dores emocionais passam a ser também físicas, as coisas ficam ainda mais fora de controle: as manhãs se confundem com as tardes, e as noites são preenchidas com vagas sensações de "vai passar". Pequena frase otimista, a junção inesperada de duas palavras... vai passar, porque a vida é uma série de acontecimentos espiralados que eventualmente se reencontram, reacontecem, revivem. Vai passar, de cabeça tomabada no travesseiro a três dias consecutivos.
O "vai passar" não implica em ações drásticas, apenas em paciência. Nos vemos vagando pelo apartamento abrindo janelas e regando plantas, contando os dias para o final do ano, quando tudo se reorganiza. E eu me pego desprevinida, não conseguindo prestar atenção nas aulas, e convertendo o estresse psicológico, a culpa, a sensação de fracasso, em uma infecção violenta que me nocauteou na cama. Depois das altas doses de antibióticos, durmo um sono pesado, e acordo no calor das cobertas, os cabelos molhados de suor, depois sinto frio, e levanto no meio da noite, quando o banheiro adquire um tom de azul cobalto, e penso. Penso, penso, penso: um tipo diferente de sofrimento. Já passei por isso tantas vezes antes... como ainda não aprendi? Ainda no banheiro, acostumando os olhos à cor estranha do amanhecer e os ouvidos às revoadas de quero-queros, penso em que lugares gostaria de estar neste momento, e como isso me faria mais feliz.
Queria estar no quintal dos fundos da casa de Xangri-Lá, no litoral gaúcho, atirada na espreguiçadeira de plástico colorido, de cara virada pra um sol queimando em tons de laranja e cor-de-rosa. Lá, as peles eram mais bronzeadas, os cheiros eram mais doces, e as noites mais bem dormidas. Talvez estaria acordando cedo no apartamento da minha avó, numa cidade exportadora de vinhos da serra, com os sinos da igreja badalando... a persiana meio aberta refletindo buracos no chão, e o cheiro de cigarro, de família, de couro, de uva. Queria poder estar dentro de um avião sobrevoando Guarulhos, Passo Fundo, Navegantes, Florianópolis, qualquer lugar que seja sinônimo de partida, de check-in, e talvez de chegada, mas as partidas são mais significantes: seat belts fastened, mesa travada, suco de laranja no copinho de plástico. Gosto de partida. Talvez preferiria estar de biquíni xadrez preto-e-branco, novíssimo, taça de champanhe em uma mão e uma batata Ruffles na outra, no convés acolchoado do barco, deslizando em linha reta sobre o Altântico... E ainda me vejo sozinha no apartamento novo de Porto Alegre, o 401 sem mobília, o único de luzes apagadas do pequeno prédio da Vitor Meirelles. De incenso aceso, cama feita, TV ligada, o sentimento de casa brotando de cada rejunte dos azulejos, de cada centímetro de gesso do teto, de cada fio desencapado gritando por uma lâmpada...
E ao mesmo tempo que gostaria de estar indo embora, gostaria de estar chegando. Chegando de braços abertos e trazendo flores para mim mesma, para finalmente me encontrar. Encontrar minha essência, minhas capacidades, meus talentos, minha influência infinita sobre a órbita da sociedade. Cavar esse monte de lixo, de tralha, e ver a luz que pisca lá no fundo. O reencontro da alma e do corpo, a comunhão de dois pólos. É uma necessidade humana quase natural essa história de espiritualidade, e, tendo em vista tantos ventos fortes que me tiraram dos eixos, aparece a necessidade de equilíbrio. De foco, de concentração, de serenidade. A redenção não está, talvez, nos lugares em que nos encontramos, mas nas situações em que nos colocamos; a tristeza absurda que me deixou doente foi um fraquejo. Deixei de acreditar por um breve momento na beleza dos momentos e na efemeridade das coisas. Falta de foco. Esqueci dos meus simples princípios para uma vida plena: o desapego, o amor, a percepção. Desapego das coisas materiais, o amor às pessoas e sensações, a percepção da rapidez do tempo.
Simples. Mas tão difícil de pôr em prática depois de um grande tropeço no escuro.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O casamento de Laura

Eu não queria que o meu casamento fosse uma grande festa. Bom, talvez algum dia eu desejei um vestido sob encomenda de renda espanhola, candelabros, gente, muita gente, e fotógrafos, e todas essas babaquices usadas pra disfarçar ou pra aparecer. A verdade é que eu queria minha família saudável, toda junta, gritando palavrões em italiano, e sendo assim, toda reunida, o que sempre chamei de casa. Queria umas velas. E a igrejinha que eu vi em Trancoso uma tarde, virada de costas pro Atlântico, umas bandeiras de santo antônio voando... Queria um vestido só meu; decote nas costas, branco, branquíssimo, branco puro de um sorriso e de um sentimento verdadeiro. Queria um flor no cabelo, pode ser um daqueles hibiscos amarelos que cobriam a calçada da casa de Búzios, mas uma flor de verdade, amarela ou vermelha, pra aparecer bem no cabelo preto. E sabe o que eu queria mais? Uma lua cheia linda linda linda sobre a grama, sobre o mar, sobre a igrejinha, sobre a gente; eu, e meu marido. Eu e meu noivo. Ele de braços abertos me recebendo num restaurante qualquer em uma cidade qualquer sob qualquer circunstância, mas me recebendo, e eu olhando pros seus olhos talvez verdes ou talvez azuis e percebendo que era com ele que eu iria casar... depois, os braços abertos me recebendo no altar, assim como me recebera em sua vida, em sua casa; minha escova de dentes cor-de-rosa na bancada do banheiro, e as calcinhas penduradas no varal. Meu marido dizendo "sim" sem saber onde a felicidade dele terminava pra começar a minha. Eu queria também ver meu irmão crescido, formado, finalmente tomando um rumo nessa vida e pondo juízo dentro da cabeça, me sorrindo do primeiro banco e parecendo exatamente a mesma pessoa do meu aniversário de 15 anos enfiado naquele smoking. Talvez ele teria aquela sombra de barba recém feita e eu suspiraria... Barba! Ele sorriria como quem conquistou algo grande, como quem ganhou cinco estrelas em Guitar Hero e como quem fez um grande acordo comercial com uma empresa têxtil. Queria minha mãe. E meu pai. Os dois saudáveis pra me ver também tomar um rumo, talvez não um rumo tradicional como o que eles tomaram, porque meus amores precisam ser todos aventureiros. Mas de qualquer forma, minha mãe talvez iria sorrir e chorar ao mesmo tempo e meu pai, bom, meu pai eu não sei, talvez não restarão mais muitos fios castanhos na cabeça dele até lá, mas eu tenho certeza que o olhar bondoso e as maçãs do rosto magras permanecerão. Queria que o padre dissesse palavras verdadeiras, "Pater noster, qui es in caelis Sanctificétur nomen tuum..." (ou algo assim) ecoando dentro da igrejinha do mesmo jeito que essas palavras ecoaram em São Bento na minha última visita ao Rio. Do mesmo jeito que eu ouvia a professora de catecismo, minha avó de cabeça baixa sobre a polenta sconta e a perdiz de domingo, ecoando, sempre ecoando o latim que eu nunca entenderia. "Livrai-nos do mal... Amém", eu talvez repetiria em voz baixa, desejando um caminho livre de outras mulheres, outros amores e distrações, livre de qualquer pecado, livre da morte do roubo da desonra. Queria que nesse momento eu tivesse a coragem de não chorar ao ver minha avó, espero que viva, que também chora, aquele choro que ela derramou em todos os casamentos das netas. Queria, depois de tudo isso, que sob o céu de Trancoso, de flor no cabelo, e aliança no dedo, eu pudesse finalmente me sentir segura, rendida, entregue à um amor. Um amor puro. Daqueles que não vêm com hora marcada, mas sim em noites como aquela, em que todo o universo parece estar a favor dos apaixonados. Desses amores que se tem certeza, independente das palavras ditas, das flores no cabelo, das rendas espanholas... livre da perfeição que só faz estragos. Um amor que é sempre amor, pela manhã, pela tarde, pela noite, no jogo do Inter e no jogo do Grêmio, na briga sobre a conta de luz, nas aventuras, nos erros, na cama, no chão da cozinha, no banco de trás do carro. O amor antítese do amor-indeciso. Eu teria certeza, completa certeza. Porque como diria Bukowski, o amor é uma espécie de preconceito; "A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece." Não seria necessário imaginar os outros amores que se perderam num átimo de segundo em que não esbarramos em alguém na saída do metrô e tornamo-nos eternamente responsável por aquilo que cativamos. Amor-com-certeza, sem a angústia de imaginar "o que ambos estaríamos perdendo?". Queria que no meu casamento não houvesse mais nada além da verdade, da segurança, da bênção. Dos olhos talvez azuis talvez verdes me recebendo, das açucenas em flor, do vento quente da Bahia, da sorte, e de talvez a promessa de uma cumplicidade sem fim...

sábado, 20 de junho de 2009

Its so easy after all

Feliz?
Que motivos? O que faz uma pessoa levantar às seis da manhã todos os dias se olhar no espelho ouvir um axé dar uma dançada beijar o irmão e querer gritar pra todo mundo ouvir que essa vida é muito boa?
Minha vida é boa pra caralho, meu... não adianta.
"A vida pode ser boa mesmo sendo tãããão loucaaaaaaaa" disse o Chorão aquela vez que eu vi de perto. Vida fodona porque eu ganhei uma maçã do amor de graça e comi inteirinha sem me preocupar com as calorias. E até porque a cada dia eu deito na cama e penso nas coisas assim como todo mundo e me sinto completa por ter feito alguém sorrir. E falando em sorrisos, acho que aprendi muito tarde que esse é o objetivo de um dia... Dar e provocar sorrisos... Por estar vestindo camisa xadrez e meia calça listrada numa festa junina da escola, por levantar os olhos da calçada e ser simpática com uma pessoa na rua, por contar uma daquelas piadas da Playboy no quinto período do dia quando ninguém mais aguenta falar sobre Machado de Assis. Por fazer um elogio mesmo não sendo completamente verdade. Por abraçar uma pessoa que já não se abraçava mais devido à convivência, e dizer que se importa, pedir se precisa de ajuda, e aceitar o sorriso mesmo que ele seja triste e uma forma de agradecimento.
Ando feliz não porque encontrei a felicidade... mas porque simplesmente parei de procurar. Larguei de mão daqueles finais de tarde encolhida num canto remoendo um erro envolvendo o tal "calor do momento", e até risquei da minha rotina o mau humor matinal, não podia mais perder tempo dessa vida preciosa e curta reclamando do frio e do atraso, de situações irreversíveis, de ser ignorada, de ser odiada por alguns... E em contrapartida me rendi aos pecados e aos mind states antes desconhecidos, sempre entendendo minhas ações como "se é merda, se usa pra adubar".
Não tenho tempo, simplesmente... quem quer correr o mundo de braços e olhos abertos precisa praticar o desapego, mesmo que ele seja de um estilo de vida antigo: destrutivo. Daquele tipo que as pessoas param pra pensar e sentem ódio de si mesmas por não fazerem o que gostam, mesmo não sendo o que querem... Gente reprimida, sozinha, que mora numa casa de paredes todas brancas e luz fosforescente, que chora entre os sonhos como eu costumava chorar, e que não tem ninguém pra ligar e pedir ajuda.
E eu, que volto pra casa todo dia depois de querer vomitar nessa fase nojenta chamada Ensino Médio, lembrando do mar e do México e desenhando uma vida de liberdade com grafite na classe, mas fico feliz do mesmo jeito, porque foi só mais um dia, depois só mais uma semana, só mais um mês, só mais um ano. Depois passa, assim como uma estação, um voo, um sentimento. O Ensino Médio passa, por isso não posso despejar um centímetro de mau humor em suas manhãs de álgebra e gramática. Eu odeio do mesmo jeito, mas eu nao sou capaz de querer que não aconteça.
Feliz porque eu entendo esse processo e o aceito como se fosse uma peça de um jogo... Um passo. Feliz porque eu ando me apaixonando fácil; pelas coisas, pela arte, pelos quadros nas paredes, pela luz atravessando a água dentro do copo, pelos livros lindos terminados, pelos cds que eu nunca tinha escutado, pelos movimentos inusitados de uma valsa clássica e pelos calores e frios dos sábados à noite. E mais feliz ainda porque não tenho mais insônia nem pesadelos, mas andei sonhando com flores e com cortinas brancas voando... Feliz porque hoje meu coração é suficientemente mole pra sentir vontade de abraçar minha professora que parece tão sozinha, vontade de pintar as unhas todas as vezes de vermelho tomate pra dar um pouco de cor pra essa casa, vontade de deitar no sol e ficar imaginando a sensação de morar um pouco mais perto do equador.
Não tem mais muito o que dizer, mesmo que a idéia original do texto fosse simplesmente fazer uma lista de todas as coisas felizes dessa minha vida, mas seria muito comprida, envolveria as lembranças recuperadas das férias em Búzios, as "voltas por cima" que eu dei, os gols comemorados no campinho improvisado de Camboriú, os braços abertos pra Mata Atlântida pra África e pro jipe 4x4 de trilha. Envolveria toda minha história - os acontecimentos importantes, os acontecimentos pequenos.
Feliz porque felicidade se sente de leve, em doses homeopáticas, absorvendo os ritmos os sons as cores e a poesia de todos os momentos...
Feliz porque minha felicidade é construida em cima tudo que é insignificante, e um sinal de felicidade verdadeira é quando se consegue fazer um ato comum ou algo que aconteceu sem que se desse a devida importância, virar poesia; um motivo consideralvemente grande pra se julgar nua e puramente feliz.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

CAN'T STOP

And I want to be known for my hits,
not just my misses
I took a shot and didn't even come close,
at trust and love and hope
And the poets are just kids
who didn't make it
Who never had it at all

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Se o amanhã não vier

Porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços. Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome,a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada.

* Lindo, lindo lindo. (Caio Fernando Abreu, num livrinho empoeirado da biblioteca da faculdade de letras; Requiem Para Um Rapaz Triste - A Peça).

sábado, 16 de maio de 2009

Só um sonho e um braço tatuado

Um post de sexta a noite, depois de uns copos entornados e umas portas batidas. Voltei pra casa com a certeza de que não cumpri minha missão, e a impressão de que todos os meus assuntos acabam convergindo para o mesmo tema. Como se, no final das contas, eu sempre quisesse falar a mesma coisa por meios diferentes. Esgotar todos os modos de explorar uma única idéia que eu nem faço idéia do que seja, mas sempre sinto da mesma maneira - mesmo quando as palavras insistem em mudar de posição ou nome.Algo grande o suficiente para assumir diversas formas e gostos e acabar sempre no mesmo lugar... mesmo que a palavra não seja lugar.
O importante é que eu não sinto meus dedos, talvez do frio, talvez do pesadelo meio sonho que eu tive noite passada, em que a minha cama ficava pequena demais pra mim dormir bem.. eu fiquei perturbada, levantei, tomei água, revisitei as imagens no meu cérebro. Substituiram a visão dos Gallagher brothers entoando um hino psicodélico dos anos 90 na minha frente, agora era um braço com uma tatuagem que eu não consigo arrancar do dono o significado, outro braço fino e branco se enroscando; Deus na sua presença mais abominável. Sonhei que discava um número, abria a porta de um carro que ainda nem é meu, Miss You Now tocava no rádio, cabelos eram puxados, assim como limites.
Era uma rua de porto alegre perto da igreja das dores e da sua escadaria, onde os militares de bonezinho circulam, assim como "just two lost souls swimming in a fish bowl...", a gente, denunciando com os fogos de artíficio debaixo das camisetas que viver, acima de tudo, é um ato perigoso.
Foi um sonho, né? Eu me revirava na cama. Pequena demais. Vazia demais. ("Adoro o inverno, mas entro no chuveiro e ligo a água quente no máximo. O sangue que ferve. Faz a gente sentir muito calor).
Não há de se entender nada, não há de se explicar bulhufas, é só pra mim me sentir mais aliviada por descrever o tal sonho. E o Tal. Foi o jeito quase-bonito, tenho certeza. A covinha. A tatuagem, eu sei que foi.
Destino é um cara mais trapaceiro que o tempo, e por isso, há alguns dias, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade. Ou disso que chamamos com descuido e alguma pressa, de arrepio..
todo mundo sabe a que me refiro.

(Rua Dos Andradas)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

I cant be jaded yet cause I'm only 16

Ali, espremido entre o dia 26 e o dia 28, fica o dia 27.
Fatídico dia em que, a uns bons anos atrás, eu nascia. É certo que o mês não deveria ser abril, sim maio, mas eu tinha muita, muita pressa pra vir logo viver nesse mundo.
Daí foi só ladeira abaixo. Aprendi aquelas coisas que se aprende quando se é criança, submisso e inocente, e também as coisas que se aprende na marra, lambendo asfalto, ralando joelho, sujando o cabelo de vômito, chorando de madrugada, mergulhando com tubarões, rolando em montanhas de neve, zerando prova de matemática, tendo taquicardias em quedas livres, torrando sob o céu eternamente colorido de Salvador, grudando chiclé na cruz e jogando pedra em santo de barro.
Sou inquieta por dentro. Desde a barriga da minha mãe. Planejo viver tão intensamente os próximos 16, 26, 36, 46 anos, o que for. Tenho mania de dizer pras pessoas que eu realmente gosto delas, de abraçar os amigos, de chorar com os filmes de guerra e com os livros de culinária, de passar a mão na cabeça dos meninos de rua, de sorrir pros estranhos, de querer fazer todas as coisas perigosas do mundo, de defender minhas leis de humanidade e de respeito, de querer entender a política a sociedade e a religião como se decifrasse um quebra cabeças da revista da Mônica, de amar todos os tipos de arte, de ver na dança clássica uma veia minha que se perdeu do coração. Mania de contar os segundos e querer gritar pro mundo que eu sobrevivi a tantos deles.
Mas eu sou humana, às vezes malvada, quase sempre um pouquinho manipuladora e, odeio aniversários.
Hoje nesse dia enfiado com resignação entre o 26 e o 28, eu comemoro com mais resignação ainda o meu aniversário. Emburrada atrás da mesa da sala de jantar finamente decorada com a louça italiana das ocasiões especiais, emburrada atrás da classe da escola durante o parabéns coletivo, emburrada atrás dos abraços, emburrada sempre. Não importa. Não sou Peter Pan, e a cada tique e a cada taque e cada dia e cada suspiro, eu fico, inevitavelmente e irreversivelmente, mais velha.
Eu aceito de bom grado que os dezesseis primeiros anos de uma vida não são os definitivos, não são pontos finais, não são trágicos, não são nada. Só são lindos.
Nós, adolescentes, somos irracionais, libidinosos, petulantes, cheio de dúvidas e ao mesmo tempo achando que sabemos tudo... vivemos nos equilibrando sobre a tênue linha da certeza de que passa e da vontade de que dure para sempre. Nossos anos são cheios de uma leveza que não pede nada em troca... só a nossa juventude. Enquanto jovens, não sabemos; e quando velhos, não podemos.
É foda. E é a vida.
Hoje me dou a licença pra ser bem egoísta e tenho a permissão pra mandar no mundo. Ponho Deus no viva voz e peço de todo o coração pra que me dê segurança para ter passos firmes, e pureza para que eles sejam leves; remos fortes para mudar a direção das minhas correntezas, e força para enfrentar a mim e ao mundo...
Peço fé, que é uma palavra linda, e peço uma mente sã pra não mais me esconder do medo. Um santo daqueles bem arretados pra que nenhum vento e nenhuma pancada me tire da minha órbita. Peço que Deus me dê uma gota - ou todas as gotas do mundo - da alegria das crianças, que eu sei, a cada aniversário, é cada vez mais e mais tirada de nós. Por fim, peço a taça sempre cheia, a família sempre saudável, e o sol sempre brilhando. Peço alguém para passar o inverno, uns ramos de alecrim, algumas rosas, açúcar, luz, e que assim seja.
Sempre.
(SWEETIE, BE HAPPY!)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sed líbera nos a malo. Amen.

segunda-feira, 16 de março de 2009

our earthly pleasures (or sins?)

A história é a seguinte: odeio ter que admitir, mas eu já passei dessa fase, gente. É sério. Eu já tenho o site da Unisinos nos meu favoritos, tenho pesadelos regulares e insônia quase todas as noites, faixa preta na gaveta de cabeceira e até carrego colírio na bolsa. Que surto de terceira idade é esse? Passei os dois, ou três, ou quatro, não me lembro mais, finais de semana me sentindo um lixo por encontrar tanta felicidade nessas coisas fúteis e sujas da vida terrena; claro, teve dias que nem as venenosas misturas da Nina adiantaram pra me deixar mais louca, mas olha, eu ando sendo tão chata e velha que nem bebo a vodka barata com medo da ressaca no próximo dia... (se bem que andei sendo mal acostumada com umas boas flûtes de Veuve Clicquot). Eu sou birrenta pra caralho. Tão egoísta, desassossegada e intensa que me doem horrores essas esperas; prefiro ficar normalzinha, encostada naquelas mesas capengas e admirando o resto do mundo entrar num colapso de semi coma alcoolico. E se eu fizer alguma merda (sem nenhum tipo de observações aqui), é claro que ninguém ia se lembrar. Eu sou o soldado mais forte. Acerto a chave no buraco e a pasta de dentes na escova enquanto o resto despenca escada abaixo e sofre pra abrir o zíper. Me da uma depressão, essa mania humana de se render fácil. E Deus deve querer o meu couro, não importa quanta vela eu acenda. E tenho odiado tanto essa história de cidade pequena em que se conhece todo mundo e eu sempre acabo na beira da mesma calçada, entrando no mesmo carro de playsson da mesma pessoa... Ok, confesso. Às vezes é maravilhoso morar aqui, mesmo que isso seja uma contradição daquelas. Gosto dos passarinhos no domingo de manhã. Gosto da piscina da minha casa livre de qualquer sombra de qualquer prédio. Gosto do trânsito pacífico - principalmente. E mesmo que o nosso destino nunca mude no final da noite. É aquilo ali e deu. Se der a louca na polícia federal, a gente ta fodido - o dono do melhor bar e do melhor restaurante não é muito de pagar imposto de bebida, entende. Aposto que vai acabar todo mundo, sim, fodido. Um na cadeia, e o resto mofando em casa. Ai, assuntos paralelos a parte, eu perdi a forma. Tô velha!
Acho que é só uma fase. Espero que seja só uma fase. Até porque todas as minhas melhores histórias aconteceram nas piores fases... E nem gosto das histórias bonitinhas e com finais felizes, mesmo. Eu pertenço a isso, é fato, não me afaste dessa vida badalada de gente que tá cagando e andando pro resto do mundo. Ainda não to pronta pra fazer tricô e mentir a idade. Até abril passo por turbulências, muitos tropeços e caidas do salto 13cm, mas são as fases, não falei?
Tenho medo de que não seja só uma fase, meu Deus.
Preciso de mais equilíbrio.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

falling

me perdi numa infinidade de olhos nessas férias, que acho que o jeito certo de expressar seus momentos é através deles... um numero inimaginavel de bolitas verdes me encarando, gente que eu não sabia que existia, mas que me senti uma guria de sorte depois que descobri. um par de olhões verdes me levou a sério e raspou o cabelo porque eu mandei... e depois teve de se ajoelhar pra recolher todos os pedaços dele mesmo que eu espalhei pela grama, no final do show do Marcelo D2. esses primeiros olhos me deixaram morrendo de dó; sobrancelhas curvadas implorando pra mim um favor... mas eu fui sã. fui inteligente. às vezes a areia é mesmo muito pesada pra um caminhãozinho. e, o segundo veio numa noite de muita Absolut e pouco auto-controle, que terminou tão mal quanto poderia terminar; uma tarde de ressaca embalada por uma rede na varanda, com a memória perturbadora dos olhos azuis olhando de cima pros meus, procurando algum resto de pureza. o terceiro, quarto, quinto e não sei mais quantos me atormentaram durante duas madrugadas de alucinação, em que o meu nome era a última coisa que importava: de Laura, me passei por Lauren, Maria Laura, Luana, Laís, e mais tarde por Paula e mais tarde ainda fui uma tal de Marília que dançava ao som de uma bateria de escola de samba, que sorria pra guitarristas em cima do palco, que fazia showzinhos particulares e que, principalmente, guardou dentro da cabeça a sensação que cada um daqueles olhos tiveram. tive sonhos e pesadelos depois, mas me arrepio inteira lembrando da intensidade inflamável de todos eles; pares de bombas relógio tique-taqueando ali na frente do meu nariz. lembro ainda do sol subindo detrás do mar gelado do rio grande sul e o cheiro desconhecido da gola de um moletom emprestado... a cena linda linda linda refletida na areia molhada, o murinho de pedra balançando com a quantidade de bundas e de silencio sobre ele... o medo de uma mensagem de voz deixada no meu celular que tinha ficado em casa (é sempre desagradável dar a notícia do "cai fora"), o medo duplicado de ser esquecida, e o medo triplicado de que aquele momento alguma hora acabasse. tava frio, mas por algum motivo eu sabia que aquela manhã seria lembrada não pelo frio, mas pelo calor que os diversos olhos tinham quando olhavam pra mim. depois, num frio ainda mais intenso, os olhos quase de índio pedindo pra casar comigo; tatuagem no peito, fama de trovador, portfolio na ford models e carreira em expansão apocaliptica. mas sim, fui eu e meu jeito de guria-de-outra-cidade-que-não-conhece-ninguém que fez o piazão me fuzilar através do gelo seco. e ainda, pra completar meu final de férias, ganhei um presente de despedida dolorido e maravilhoso: nunca mais - ou pelo menos nao num futuro proximo - iria rever os olhos que mais me comoveram. uma mistura que levava um sorriso lindo, modos de cavalheiro e a certeza de que eu iria ir embora pensando nessa tal mistura. assim como eu tenho certeza de que nenhum de todos os olhos jamais esqueceriam os meus próprios. foi um abraço apertado demais, os ossos das costelas se estralando, uma frase sem sentido nenhum, na ponta dos pés. quis enfiar um cano de revólver na minha garganta. quis agarrar aquelas bochechas. não recebi mais nenhum abraço sincero. mais ninguém quebrou minhas costelas e invadiu minha cabeça. e, na volta pra casa, num ônibus sujo que se sacolejava por essas estradas secundárias do sul, dormi e sonhei com as cores bonitas dessas minhas férias... o cinza da chuva constante, o laranja do sol da manhã batendo nos ombros, o azul marinho do mar furioso, o vermelho de uma camiseta e das bochechas, o prateado do choro, da lua e do brinco, o rosa se transformando em amarelo às seis horas da manhã. e olha que comecei, em janeiro, desacreditando completamente na minha capacidade de me divertir em qualquer lugar - pensava que precisava estar naquele lugar pra poder viver. comecei querendo dar um passo mais largo do que as pernas, mas me surpreendi, porque não cai. não houve tombo. é, chorei uma noite de medo e de solidão, de saudades e de impotência, de vontade de arrumar as malas fugir viajar mandar tudo se foder... chorei por não estar no lugar que em que eu queria estar. e no final, era exatamente lá que eu queria estar.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

me perdi

não sei mais o que quero dessa vida.
num panorama mais geral, daqui a pouco eu tenho 22 anos, formada, desempregada, sem nenhum tipo de perspectiva, sofrendo porque a minha juventude não foi tão emocionante quanto eu pensei que seria.
e não tem graça nenhuma ficar procurando por encrenca, tem que ter espontaneidade. tem que ser alguma coisa essencialmente verdadeira e pura, que escorre e toma conta de uma existência inteira.
mas, provavelmente, eu vou estar trancafiada dentro de um apartamento no bairro do Bonfim, com a carteira de motorista apreendida, pulando de festa em festa e de aula em aula, esperando a hora certa de jogar tudo pro alto e ir viver.
bem... a condição natural dos corpos NÃO é o repouso... é o movimento. e há de se entender que talvez uma certa calmaria pode se instalar em mim nessa época; mas cá dentro, eu sou - e permanecerei até os 22 anos - intranqüila por natureza.
não existe receita, regra, lei, sei lá o que. mas não quero virar gente grande. não quero os 22 anos, nem o diploma, nem ter que trocar o lixinho do banheiro da minha própria casa.
medo da independência, né?
...ou medo de um ponto final?
prefiro uma vírgula, quem sabe. e como minha mãe diria, ai meu deus, quanto drama.
"deixe em paz meu coração
que ele é um pote até aqui de mágoa
e qualquer desatenção, faça não
pode ser a gota d'água "

domingo, 25 de janeiro de 2009

100th

numa dessas noitas de tédio em que todo o universo parece conspirar contra nós, eu e minha Dupla De Loucuras Em Cidades Estranhas, resolvemos quebrar - quase - todos os códigos de conduta. e que fim nos levou? o início da última noite de nossa temporada na praia marcada por duas cicatrizes (assim como o rosto daquele alguém que me abrigou da chuva); diferentes, é claro, cada uma se cortou de um jeito... mas quem falou que não dói igual? eu levei um pito por olhar pro mar como se ele fosse a minha redenção, "Ô Japa, olha pra mim. Chega de nhénhénhé. Última noite, quero ver empolgação!". não, obrigada. nem a muvuca frenética de argentinos passando ao nosso redor, nem a garganta inflamada do outro que, coitado, enrolava o pescoço num casaco de lã. nem o mar, que ali pertinho, abria os braços pra mim como se fosse a minha redenção. definitivamente, o universo estava certo... é extremamente perigoso contrariá-lo e o certo era ter ficado em casa. ele havia me entregado os limões, mas naquele momento, eu não tava com vontade de fazer limonada. e eles não adiantam nada, se me falta o sal e a tequila.
é claro que o fim que nos levou não foi um final feliz...
já basta viver para correr todos os riscos do mundo, mas a solidão é a minha pior inimiga, e eu acabei me tornando uma pessoa realmente perigosa naquela noite. não foi o mar que me salvou. não foram as mensagens digitadas com força. e, principalmente, não foi aquele par de braços compridos. não há redenção onde há erro. eu pedi perdão pro mundo por ser eu mesma deitada na cama, sozinha, em silêncio mortal, depois de tropeçar nas palavras e nos copos, ainda com o zumbido de mash-ups insanos na cabeça. pedi perdão porque esse é o único jeito... a minha sinceridade comigo mesmo assustaria qualquer um que talvez o fato de eu ter permitido um recém-conhecido olhar tão fundo nos meus olhos fez com que ele visse essa imperdoável mania de me sujar e depois me purificar. tanto sei que ele viu, que em cinco minutos ele não foi mais capaz de me olhar nos olhos novamente. tão cruel comigo mesma que o mar não seria capaz de lavar metade das minhas auto-mutilações.
não haveria salvação pra minha tristeza.
mas também não haveria, jamais, nenhum motivo para ela sequer existir.
eu estava cercada de gente que me queria bem, da esperança de Janeiro e até daqueles elétrons emanando da felicidade dos outros que fazia meu braço arrepiar inteirinho.
mas não... eu estava com um pé (talvez o corpo inteiro) numa outra dimenção que só exisitia nas minhas possibilidades loucas. os Precious Times que eu jamais teria ali, naquele lugar, com aquelas pessoas. minha realidade paralela tinha tudo o que eu precisava; Salvador, trio elétrico, Orloff de graça, o capitão Pedro Bala em carne e osso e redes debaixo de um coqueiro. pra quê cargas dágua eu ia insistir naquele lugar?
e assim, minha última noite na praia foi trágica.
foi cômica, também, mas eu tava rindo das piadas dos outros, não das minhas próprias. e ao som de Tomorrow Can Wait eu me rendi pro meu lado corrosivo e perigosíssimo se não usado nas doses certas... e não foi.
pedi perdão, mas continuo infestada de uma sujeira insuportável.

sábado, 27 de dezembro de 2008

meu presente

Eu tentei acabar com a minha dor nesse Natal, descontando em gente que eu gosto muito, em copos de vidro e portas de carro. Exatamente o tipo de dor que se sente no momento que um doce muito bom acaba de terminar, ou que um déjà-vu de algum segundo precioso foi embora, ou que a sua mão acabou de ser solta pela mão de alguém. Um tipo tremendamente assustador de dor; que me fez abaixar a cabeça pros meus próprios pés no meio de uma multidão histérica e sentir vontade de chorar até secar por dentro.
Saudades de 2008, quem sabe? Do Caminho Não Escolhido, que ficou lá pra trás, na encruzilhada? Ou apenas a dor de estar sozinha, mesmo rodeada de gente?
Eu não precisava de uma tequila grátis, eu não precisava de um olhar torto ao passar meu número pra um cara desconhecido, e muito menos de uma batidinha no ombro falsamente simpática. Eu precisava de alguém pra me ajudar.
E esse ano novo eu resolvi que vou passar completamente sozinha.
Que não vou esperar por amigo nenhum vir me socorrer, nem que algum estranho consiga preencher meus vazios... Eu, meu vestido amarelo, o mar e 2009. Eu, minhas esperanças, sonhos e medos.
Mas o meu presente pra humanidade é que eu nunca, jamais, vou fazer qualquer pessoa se sentir solitária, desamparada, ou vazia.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

ponto de partida

Ai, como vc me enxerga mal! - diria com um riso tranquilo no fundo. Sou faceta e isso também sou eu, cada pedaço não me é já me sendo inteira, e ser sonsa de si faz parte do próprio jogo. Porque?, não sabia, mas fora sempre assim. A poesia das pequenas coisas se alargando e tomando o dia inteiro, a beleza cobrindo as coisas, o pensamento circular, lágrimas de apatia e paixão, como explicá-la? Inexplicável, se quase cabia numa música mas transcendia, ultrapassava, poetizava e empobrecia. Às vezes precisava se sujar, e isso era surpreendentemente ruim. Mas precisava, pra se purificar de novo. E mesmo na sujeira encontrava sua essência e sua brancura em ser terrivelmente humana e concreta. Pode ser precipitado, pode ser precípicio, eu sei que você não vai me acreditar: mas estou começando a ser justa comigo mesma, não me condeno, não me odeio, coexisto ainda, indiferente ao âmago, mas que seja esta a primeira forma de recomeçar, impessoalizar a dor. A dualidade da minha alma e da minha pele pedem: pensar e omitir, beber e se abster, chorar e desonrar, e talvez por isso nunca me completasse, e dessa forma, fosse completa. =)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Otimismo

é tão estranho falar que o ano novo está chegando, quando ainda falta um mês pro velho terminar... feliz de mais, entende? não porque tá quase tudo no final, mas porque os novos planos já estão em ação! o que passou eu faria de novo e de novo e de novo e não me arrependeria nunca, e o que eu não fiz foi porque não era pra fazer simplesmente. acredito que as brigas e os abraços tiveram seu valor, mesmo que brigas nem aconteceram tanto - foram anuladas pelas amizades novas. e quando aconteceram, terminaram todas com um abraço pacificador. e ahh... foi tanta risada, tanto sorriso e tanta gargalhada que se eu fosse resumir mais ainda o ano de 2008, resumiria num sonoro HAHAHA! é tão bom abanar adeus pra um ano, sabendo que mesmo sem ter feito tudo o que era pra ter feito, ele correu maravilhosamente bem; e quando você se sente renovada é ainda melhor. espero mais entrega, rock inconseqüente, espontaneidade, barrigada na água, olhos fechados e cabeça aberta... afinal o que nos inibe? eu sei, não basta querer tem que correr atrás, correr como meu pai correu pra fazer de mim alguém com caráter, alguém disposto a errar e a nunca persistir no mesmo erro. desejo sol e mar em janeiro um amor no final de fevereiro e se possível que seja amor verdadeiro. em abril, aceito vários presentes, ou um parabéns de coração. junho e julho que venham as escolhas, e que me invadam e me sufoquem, que são elas que eu aguardo sentada... setembro logo chega, trazendo a sensação de que com ele vem novamente um ano novo, mesmo que sendo avistado de longe e meio embaçado. e rezo para que em 2009 esqueçam-se da minha vida e parem de procuram meus defeitoseu ja to bem grandinha pra escolher novos rumos e acolher as suas devidas consequencias. que o tempo não corra mais tão rápido, que o horário de verão continue por mais um bom tempo, que eu passe nas recuperações, que minha saúde permaneça inabalável e meus anticorpos fortes pra lutar... porque eu vou permanecer no campo de batalha, o quanto precisar permanecer. e se minha felicidade depender apenas de mim, tenho certeza que ela vai rapidamente se instalar, como a chegada da primavera ou um novo hábito na rotina - assim, quase imperceptível. 2009 ta me esperando, ali na esquina de dezembro, e eu corro, preciso chegar logo! NESSE ANO ALGUMA COISA VAI ACONTECER, eu to louca pra saber o que é.

(sem revisões)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Good morning, summertime!



Tenho uma relação de amor e ódio com as manhãs. Normalmente as odeio porque precisam ser preenchidas por longas horas enclausuradas numa sala de aula, ou porque iniciam com um longo bocejo e o frio sulista gelando os pés quentinhos. Mas não quero falar do frio que faz aqui às sete da manhã. Hoje quero falar sobre o calor, sobre o verão e sobre um rio de janeiro que vai bem além do cristo. Existe um outro lado da moeda - mas mesmo assim ainda a mesma. É lá onde estão as manhãs tão lindas e tão cheias de cheiros bons e sensações, que no verão, são preenchidas rapidamente; com café da manhã ao meio dia e o direito de ficar enrolada no lençól que nem múmia por um bom tempo até o calor ficar insuportável. Mais além, foi nesse verão que aprendi a ver as manhãs com aquele quê de melancolia, esperança e lentes da câmera de um filme; o caminho familiar feito todo dia da casa alugada até o restaurante do hotel, para o café, passando pelos arbustos cheios de hibiscos cor-de-rosa e abelhas. Percorrendo devagar a orla do canal - a água do mar canalizada para dentro do condomínio - e absorvendo o cheiro de combustível diesel dos veleiros. As mansões dos milionários reluzindo as pedras de São Tomé, os mármores, os vidros, os enormes iates ancorados a um passo do jardim e as crianças loucas que eu sempre via correndo por eles. Eram naquelas manhãs compriiiiiidas que íamos os lugares mais lindos, percorrendo sem medo as rotas; seguindo em linha reta pela água ainda cinza do mar, bem na saída do canal, logo vinha a Ilha da Gipóia, e, bem onde o marinheiro ancorava, era possível ver um quase-continente chamado Ilha Grande. Era desafiador fazer esse passeio; o vento batia forte na cara e sempre se tinha a impressão de que o mar era infinitamente maior do que o barco podia suportar. Alcançávamos a Praia de Araçatiba depois de algum tempo de sacolejo nas ondas, e tinha aquelas árvores enormes e de folhas largas fazendo sombra na areia. Em Angra tudo é esquecido, e não tinha uma alma naquele lugar, nada além do barulho do motor, braços e pernas batendo na água e as vozes altas das minhas primas. Ainda pela manhã, com o sol a pino esquentando as costas ensopadas de Australian Gold, fazíamos a volta na ponta oeste da ilha, até que era alcançada a Praia dos Meros: alto-mar, água azul petróleo bem funda, cheia de água viva e peixinhos que faziam cócegas nas pernas. Depois vinha, numa ordem crescente de beleza e esquecimento, a do Aventureiro, do Sul e do Leste, Parnaioca, e, Lopes Mendes: uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida; enorme, quase interminável, com aqueles bancos de areia cobertos por amendoeiras, uma profundidade de quase quatro metros, mas o fundo ainda visível. Todo mundo enchia os olhos de lágrimas e depois, de marcha ré, adentrávamos de novo no alto-mar, fazendo a volta. Era o caminho de casa, por isso sabíamos quando estava chegando no final, que normalmente vinha antes da uma da tarde. A essa hora, no final da manhã, o mar parecia feito de ouro, uma coisa tão impressionante, tão linda, e tinha um farol, Farol dos Castelhanos, daqueles que Hemingway descreveria num de seus livros. Listrado de vermelho e branco, cercado de pedras inalcançáveis. Depois, passava correndo Freguesia de Santana, o Saco de Céu e mais dezenas de prainhas que eu não me lembro mais o nome; todas exclusivíssimas àquela hora, longe das escunas turísticas e dos cariocas invasivos. E todas com suas igrejinhas brancas, pescadores morando em barracos e comendo os mariscos trazidos pela ressaca da maré, e talvez aquelas histórias meio bobinhas sobre piratas, escravos que morreram de escorbuto nas cavernas, e mais horrores de blablabla's que faziam os olhos do meu irmão brilhar.
Uma hora e trinta minutos acabava minha manhã. Acabava a parte mais deliciosa do dia e começava a parte insuportavelmente entediante e quente; o dia transcorria calmo, abafado - com aqueles ventos-que-não-fazem-vento que vêm da África, e não havia um minuto antes da noite em que eu não pensava na próxima manhã. Hoje, nos finais de semana de janela aberta e cheiro de férias, as manhãs são doloridas... Se não é a ressaca física de sexta ou de sábado, é a moral, que mil vezes pior, transforma as manhãs parecidas com as de Angra em um inferno na terra, mesmo que o vento sopre sem fazer vento, ou que o mar pareça estar perto do Alto Uruguai. Minha relação com as manhãs é dividida por uma linha estreita; de um lado, o verão, as Havaianas coloridas, camarão e a Ilha Grande. Do outro, o inverno, a escola, os cachecóis e as blusas de lã, o chiado do vento minuano nas frestas da janela. Normalmente consigo conciliar esses dois extremos e ficar balançando no meio da linha; o corpo pendendo nem para um lado nem para o outro, como se alguma mão me segurasse ali em cima, sempre na dúvida, mas sempre insistindo em dizer GOOD MORNING, SUMMERTIME!, mesmo quando a temperatura é negativa!





(Good morning starshine, the earth says hello! You twinkle above us we twinkle below...)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

we dont give a fuck what the price is, so just leave us to our own devices.

"hoje nos despedimos de 2008 sem ter noção do que será 2009.
fui parar onde estou hoje depois de uma queda no escuro, mas acabei encontrando o que procurei por tanto tempo: união.
talvez porque todos nós estamos lá pelos mesmos motivos. UFRGS e dar risada. UFRGS e fazer da vida uma festa. UFRGS e deixar o campus surdo com os apitos de festinha de criança. UFRGS e pegar no sono na aula de geografia. conseguimos misturar numa carga horária terrivelmente torturante o futuro amedrontador do vestibular e a infantilidade com que nos divertimos.
hoje terminou mais um ciclo - que eu pensei que fosse demorar uma eternidade. mas 2009 não demora a chegar. de novo. eu volto pro ponto de partida em que estava no final de 2007. mas naquela época, eu estava com medo. eu tinha medo de que minha vida despencasse ladeira abaixo e dali fosse de mal a pior.
hoje eu não tenho mais medo, hoje eu não preciso mais consultar a infinita variedade de possibilidades ruins antes de fazer alguma coisa - até porque ultimamente tenho errado muito e feito muita merda também. aprendi a aceitar as conseqüencias como parte da diversão; e essa minha habilidade eu devo aos meus nem-tão-novos-colegas.
obrigada por fazerem de mim uma pessoa mais segura. obrigada pelos sorrisos às sete da manhã. obrigada pelas surpresas, abraços e pela ajuda quando eu mais precisei. ninguém sabia como era estar no meu lugar, mas todos fizeram questão de me fazer sair dele.
ano que vem, mais gente vai se juntar a nós. ano que vem, seremos num total de quase 40 irmãos e irmãs, e tenho certeza que continuaremos mal-educados, competitivos, vencedores invictos da semana da escola, aplaudidos de pé pelo terceirão, descontrolados, barulhentos, desorganizados e com notas baixas!
espero que a 1v2, como 2v2 e 3v2, continue sendo "os piores e mais mal comportados alunos que a "Univ. Regional Integrada" já teve nos últimos 15 anos", conforme disse o diretor no meio de uma guerra de mapas-mundis e apagadores de quadros.
a gente talvez não mereça esse título, mas com certeza, ninguém nunca viu uma família tão grande, tão unida e tão feliz quanto a nossa.
parabéns 1v2. sobrevivemos ao primeiro ano!"